Musical Moods da BBC

Um dos principais desafios pelo qual a BBC está passando é a respeito da digitalização de seus arquivos. A questão já não é apenas digitalizar textos, vídeos e fotos, mas organizá-los da forma mais inteligente possível.

Um detalhe que os cientistas Gordon Bell e Jim Gemmell destacam no livro “O Futuro da Memória“. A questão da digitalização hoje em dia não é tanto captar, mas recuperar de forma inteligente e útil as informações que temos digitalizadas. Adianta pouco termos tantas informações armazenadas em servidores e banco de dados se não conseguimos recuperá-las e visualizá-las de tal forma que faça sentido prático em nosso dia a dia.

Para justamente recuperar de forma inteligente esse conteúdo digitalizado, o time de Pesquisa e Desenvolvimento da BBC lançou o experimento Musical Moods.

No site, a BBC convida os próprios usuários a classificar o conteúdo da emissora.

Para isso, pergunta qual estado de espírito (feliz, triste, chato) você associa a um tema musical de um programa de TV da BBC. Ao responder a pergunta, você está ajudando a classificar os arquivos, além de aumentar os metadados do conteúdo.

A ideia é também brincar um pouco com a memória das pessoas. Todo mundo sempre associa um programa de TV e a sua respectiva trilha musical a uma fase da vida. Lembra de qual programa de TV é essa música? Ela lhe traz boas memórias? Você já a ouviu antes?

Essa associação é muito importante para BBC, pois a música (trilha sonora) tem uma influência grande na forma como consumimos e memorizamos programas de TV. Um telejornal não seria a mesma coisa sem a sua música de abertura.

Mais para frente, a ideia é mesclar e analisar todos os dados coletados pelo experimento para criar uma nova forma de explorar o conteúdo da BBC. Quem sabe fazer uma busca ou uma navegação pelo conteúdo que fuja dos tradicionais parâmetros.

No final, os dados do experimento serão disponibilizados em formato aberto e sob domínio público.

O vídeo abaixo explica com mais detalhes o Musical Moods.

Veja também: As duas telas da BBC

Publicado por Tiago Dória, em 22 de março de 2011 (Terça-feira).
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Web semântica não precisa ser complicada

Web semântica é um conjunto de tecnologias que permite interligar dados na web. Dessa forma, bem simples, Ivan Herman, responsável pelos estudos de web semântica do W3C, definiu o conceito, visto por muito anos como um enigma.

O pesquisador participou como palestrante do Café com Browser, evento organizado pelo escritório do W3C Brasil, na manhã desta sexta-feira, em São Paulo.

Por um conjunto de tecnologias, entenda-se algumas já existentes, como RDF e SPARQL. E por dados, informações públicas de todo tipo em formato aberto.

Como exemplo prático, Herman citou a BBC Music, que utiliza informações de banco de dados abertos para construir o seu site. Os perfis dos artistas, por exemplo, são criados com conteúdo do verbete equivalente na Wikipedia, além de músicas disponíveis no MusicBrainz.

Segundo ele, até hoje o conceito de web semântica assusta muita gente. Isso acontece porque, em seu início, ele foi explicado de forma errada, muito complicada. Deu-se muita ênfase à questão da ontologia.

Parecia que eram necessários diversos doutores e PhDs para poder desenvolver algo ligado à web semântica, enquanto que as coisas poderiam ser bem mais simples.

As tecnologias para a realização da web semântica já existem. RDF, tecnologia que permite a interligação de dados, por exemplo, existe desde 1999 e a sua estrutura não é difícil de ser explorada e estudada, segundo Herman.

Para ele, um ponto de virada em relação ao conceito de web semântica aconteceu em 2008, quando o movimento sobre linked data (dados interligados) passou a descomplicar o discurso.

Neste sentido, uma série de conferências sobre web semântica realizadas nos EUA, voltadas mais para negócios, ajudou a desmitificar o conceito.

Além de descomplicar, o que achei interessante na apresentação de Herman foi que ele levantou a questão do “efeito de rede” nos dados.

Efeito de rede” é uma dinâmica bem comum na internet. O valor que um usuário dá a um produto depende de quantas outras pessoas estão usando-o. Por exemplo, quanto mais pessoas utilizam o Facebook e o Google, melhores eles ficam, mais sentido há em usá-los

A mesma coisa acontece com os dados, quanto mais pessoas os utilizam, mais valiosos eles ficam. Recentes projetos de web semântica têm deixado isso bem claro.

Durante a apresentação e as posteriores perguntas do público, Herman deixou de lado a bola de cristal, optou por não prever o futuro dos “dados interligados”.

Mas cogitou que a web semântica vai enfrentar alguns desafios, como a própria questão da privacidade e da ética no uso dos dados. Quando você disponibiliza dados públicos na web, abre espaço para que eles sejam usados de todas as formas inimagináveis.

Além de, claro, um problema comum a outras áreas do conhecimento. Apesar da web semântica ser algo descomplicado, na sua visão, ainda faltam especialistas na área, pessoas que entendam as tecnologias e realmente saibam colocar a mão na massa.

Para quem quiser, dá para baixar os slides da apresentação de Herman.

Veja também: Como a BBC ‘reutiliza’ a web

Publicado por Tiago Dória, em 15 de outubro de 2010 (sexta-feira).
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Para Facebook, o que mais importa numa mensagem é quem a envia

Em meados de 2009, quando Mark Zuckerberg, cofundador do Facebook, disse isso durante uma entrevista poucas pessoas deram atenção.

Segundo Zuckerberg, o que menos importa, numa mensagem, é o conteúdo e, sim, quem a envia. Se a mensagem vier de uma pessoa que você confia, você a escutará. No entanto, se vier de uma pessoa que você não confia ou não a conhece, dará pouca atenção, pouco importando o conteúdo. Isso se aplica a qualquer coisa, notícias, músicas, vídeos que são compartilhados na web.

Na ocasião, muitos não entenderam bem o sentido prático do recado de Zuckerberg. Contudo, ele ficou mais claro com as recentes mudanças anunciadas no Facebook.

A mais comentada foi lançamento do botão “curtir”, que pode ser inserido em qualquer site ao lado de qualquer conteúdo – vídeos, fotos e textos. Em um site que tem esse dispositivo, após uma pessoa clicar no botão, automaticamente aparece uma mensagem em seu perfil no Facebook, avisando que ela gostou de tal conteúdo.

É uma forma do leitor de um site endossar o conteúdo do mesmo e enviar aos seus contatos no Facebook um sinal de que gostou de um vídeo, texto ou foto.

No lançamento do botão “curtir”, os sites de notícias foram o principal foco. A ideia é que, com o uso do botão, esses sites enviarão tráfego e informações ao Facebook. Em contrapartida, receberão mais tráfego vindo da rede social e, além do mais, ganharão uma roupagem mais “social” (seja lá o que isso quer dizer hoje em dia, com a banalização do termo).

Os sites de notícias também poderão exibir em um box quais as matérias que os usuários mais “cutiram”. Ou seja, algo que o Times People, a rede social de leitores do NYTimes, faz há algum tempo, mas sem alcançar um grande número de adesões.

Se a gente olhar atentamente, essa dinâmica do botao “curtir” não é nenhuma novidade. Há algum tempo o Mento faz o mesmo e um pouco mais. E o botão “curtir” não difere muito daquelas fileiras de ícones existentes no final de matérias, feitos para compartilhar conteúdo em diversos sites – Twitter, Digg, delicious. Ícones que, diga-se de passagem, pouquíssimos usuários clicam e utilizam.

Então, de onde vem o burburinho em torno do botão? Vem do fato de o Facebook ser popular (400 milhões de usuários) e de os seus usuários serem bem ativos (25 bilhões de links são compartilhados por mês), assim como do que pode surgir a partir do uso do botão.

Numa suposta primeira fase, o Facebook conectou pessoas. Na nova fase, que começou recentemente, a rede social pretende associar pessoas a produtos, organizações e sites, relacionando-se, assim, ao conceito de web semântica.

A partir desse conjunto de dados, o Facebook poderia fornecer um mecanismo de busca mais eficiente em que a relevância dos resultados seria baseada nas nossas conexões sociais e preferências, e não num algoritmo semelhante ao que acontece atualmente no Google.

Você quer saber qual o melhor restaurante de comida árabe? Recorra aos seus amigos no Facebook que entendem bem melhor você e não ao Google.

Outra intenção é monetizar o grafo social, diagrama que ilustra todas as interconexões entre grupos, organizações e pessoas, um dos principais ativos do Facebook, segundo o próprio Zuckerberg. Com os dados do uso do botão “curtir”, esse diagrama ficaria mais rico e poderia ser utilizado para exibir anúncios personalizados, mais alinhados com as nossas preferências.

Contudo, o Facebook poderá encontrar algumas barreiras para um futuro tão brilhante.

A primeira delas, a questão da privacidade. Não é todo mundo que deseja que os seus dados de conexões sociais sejam utilizados por terceiros.

Depois o conceitual, a própria noção do que seja relevante para os meus contatos do Facebook pode nem sempre ser relevante para mim.

E a terceira questão, mais profunda, é o próprio modelo de negócios. Um modelo de receita via publicidade não é o caminho mais fácil para o Facebook. Em geral, redes sociais estão mais para ferramenta de comunicação do que plataforma de mídia. Ou seja, o Facebook é uma ferramenta de comunicação, um utilitário, tão quanto o telefone. As pessoas estão lá pelo motivo de poderem se conectar a outras pessoas e não por causa do conteúdo.

Historicamente ferramentas de comunicação geram melhor receita por meio de serviços e funcionalidades a mais, e não por meio de publicidade, pelo simples motivo de que os anúncios soam intrusivos neste tipo de produto/tecnologia. Imagine a situação, você está conversando com uma pessoa ao telefone e de repente a conversa é interrompida para entrar um anúncio. Ou uma ligação de telefone se encerra ou começa com uma propaganda.

Para alguns, todo esse futuro de “web semântica” do Facebook (competição com o Google, monetizar grafo social) não passa, ao menos por ora, de especulação. Isso, porém, não parece ser um problema para Zuckerberg, o Facebook está naquela fase em que o valor de uma empresa é fixado bem mais no que ela pode vir a ser do que em receitas e lucros reais.

Veja também: Dá para fuçar o DNA da Google?

Crédito das fotos: escapedtowisconsin e Dan Taylor

Publicado por Tiago Dória, em 3 de maio de 2010 (Segunda-feira).
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