Ray Ozzie, o substituto de Bill Gates na Microsoft, anunciou a sua saída da empresa, na semana passada. Nesta segunda-feira, publicou Dawn of a New Day, carta de despedida de seu trabalho como arquiteto-chefe de software na Microsoft.
(Ozzie continua na empresa, na área de entretenimento, mas durante um período de transição até a sua saída definitiva).
A carta tem um peso histórico, bem como o texto The Internet Services Disruption, escrito por Ozzie há 5 anos para os funcionários da Microsoft.
O executivo acredita que a Microsoft deve se preparar para a Era pós-PC, o que, segundo ele, seria um mundo com serviços centrados nas nuvens (cloud computing) e de dispositivos sincronizados e conectados. Esses dispositivos iriam muito além da tradicional tríade tela, teclado e mouse (tablets?) e seriam capazes de reconhecer o que está a nossa volta – localização, gestos, altura, temperatura, direção e nosso estado emocional.
Não haveria distinção entre aplicativos para web e para desktop.
Em 5 anos, Ozzie acredita que a Microsoft errou e acertou. Competidores tiveram uma visão melhor sobre experiências mobile. Mas, por outro lado, a Microsoft conseguiu, por meio do Xbox 360 e da rede Xbox Live, transformar a TV em uma experiência mais rica.
Com essa carta, Ozzie é mais um executivo que detalha o fim do PC ou talvez do computador como o conhecemos. Em junho, Steve Jobs adotou um discurso parecido, assim como Nicholas Carr vem batendo nessa tecla faz tempo.
Veja também: Uma espiada no futuro em 2020
Crédito da foto: Jeff S.
Antes de apresentar o seu superestimado iPhone 4, Steve Jobs, cofundador da Apple, esteve na conferência D8, promovida pelo Wall Street Journal. O evento teve um pouco de tudo. Um Mark Zuckerberg TENSO, apresentação de tablet educacional, Alan Mulally, da Ford, falando sobre a possibilidade de instalarmos aplicativos nos carros, igual a um smartphone, além de Jobs declarando o fim do PC ou talvez do computador como o conhecemos.
Para variar, a declaração do cofundador da Apple foi vista apenas como uma cutucada na Microsoft, uma provocação barata. Não somente no Brasil, mas lá fora ainda existe, de forma geral, o vício de cobrir tecnologia como se fosse futebol – quase tudo acaba se resumindo a Apple vs Microsoft, Google vs Microsoft, blogueiros vs jornais, alguma coisa vs outra coisa.
Porém, a questão é mais ampla. A afirmação de Jobs de que PCs estão se tornando “caminhões” (ou seja, uma coisa grosseira) ecoou de forma diferente em parte da web.
Logo que li a frase lembrei de uma provocação do pesquisador Nicholas Carr. No começo deste ano, Carr afirmou que estava nascendo uma nova era na computação pessoal e lembrou que ainda produzimos computadores como se eles fossem utilizados somente por geeks.
Enquanto usados apenas por geeks, tudo bem computadores necessitarem de instalação, atualização constante de antivirus e firewall ou ainda a digitação de linhas de comando, mas depois que passaram a ser utilizados por “simples mortais”: as coisas mudaram de figura.
Hoje, computadores pessoais não são mais utilizados somente por “entusiastas de tecnologia” e menos ainda somente para trabalho. Segundo Carr, atualmente queremos fazer uma infinidade de coisas com um computador. As expectativas são outras em relação aos PCs.
Ou, em outras palavras, seria o que mostra Deyan Sudjic, diretor do Design Museum de Londres, em seu livro A Linguagem das Coisas – computadores deixaram de ser “ferramentas científicas” para se tornarem objetos de consumo.
Neste sentido, o que é mais intuitivo e humano – manipular um mouse ou utilizar toque de mão na tela para controlar um computador?
Quem gostaria dessa discussão seria Michael Dertouzos, professor do MIT. Em seu livro A Revolução Inacabada (leitura recomendada), o pesquisador dizia que a chamada revolução digital começaria somente a partir do momento em que utilizar um computador seria tão simples e intuitivo quanto ligar uma TV ou usar um fogão. Os tablets seriam o início disso? Por que um computador não pode ser simples e menos técnico quanto utilizar um carro ou uma TV?
Veja também: O fim da internet como a “Terra Prometida”
Crédito da foto: mandyxclear
“O Brasil deve crescer muito e achamos que, em três anos, será o 3º maior mercado de PCs no mundo, atrás dos EUA e da China”
Steve Ballmer, diretor executivo da Microsoft, durante passagem pelo Brasil.