Nathan Yau talvez seja um dos caras que mais escreve sobre visualização de dados na web. Desde 2007, ele é editor do Flowing Data, um dos blogs mais populares sobre o assunto.
Engenheiro e doutorando em estatística pela Universidade da Califórnia, Yau está lançando um livro sobre o blog – Visualize This: The FlowingData Guide to Design, Visualization, and Statistics.
Além de mostrar como, hoje em dia, podemos contar uma história por meio de dados, o engenheiro revela como usar ferramentas – Illustrator e JavaScript – para desenvolver visualizações.
A previsão de lançamento é para o mês de julho.
Veja também: Jon Stewart e a visualização de dados na TV
Estávamos acostumados a ser pobres em calorias e agora o problema é a obesidade. Estávamos acostumados a ser pobres em dados, agora o problema é a obesidade de dados
Dessa forma, Hal Varian, economista chefe da Google e autor do “Economia da Informação”, traça um paralelo entre alimentação e overload de dados.
Eli Pariser, pesquisador e presidente da organização política MoveOn, gosta de usar a mesma metáfora. Do mesmo modo que, para acabar com o sobrepeso, devemos mudar os nossos hábitos alimentares, Pariser acredita que, para lidar com o atual overload informativo, precisamos mudar o modo como consumimos mídia. Devemos fazê-lo de forma menos compulsiva e adotar uma dieta saudável de informação, combinando conteúdos que vão ao encontro do que já acreditamos com aqueles capazes de trazer algo que ainda não conhecemos.
A ideia parece ser bem razoável, ainda mais tendo em consideração que serviços, como Twitter e Facebook, passaram de solução para problema no tocante ao overload informativo (vide o Facebook que foi obrigado a criar o filtro do filtro – a aba “principais notícias” na timeline da rede social).
Daí, parece ser um caminho natural buscar uma solução comportamental, e não tecnológica, para a avalanche de informações, mesclando o acesso a dados novos com coisas que já conhecemos. Entretanto, nos últimos anos, essa dieta saudável tem se tornado cada vez mais difícil, em razão – quem diria – dos milhares de algoritmos na rede, alerta Pariser em seu primeiro e polêmico livro The Filter Bubble, What The Internet is hiding from you? (Editora Peguin Press/304 páginas).
Segundo Pariser, sistemas de relevância na web, como Facebook e Google, que fornecem conteúdo personalizado, são úteis. Disponibilizam o que a gente quer. Evitam que gastemos dinheiro e tempo com coisas que não apreciamos. Contudo, eles podem nos deixar acostumados a ouvir e a ler apenas, e tão somente, o que nos agrada e, assim, ratificar a nossa visão de mundo. É como correr atrás do próprio rabo.
Ou seja, esses sistemas acabam por nos deixar longe de uma visão de mundo discordante, daquele conteúdo que destoa e que, naturalmente, também é importante para a nossa formação.
Tais filtros criam um loop do qual fica difícil sair, e que é chamado de “filter bubble”. Para o pesquisador, isso é nocivo. Nem sempre a informação que a gente gosta de ouvir é, de fato, a mais importante para nós. Quando o mundo é estritamente criado em torno do familiar, você não tem nada para aprender. E mais. Para ser livre, você não deve ser capaz apenas de fazer o que quer, mas saber o que pode fazer, afirma Pariser.
Do mesmo modo que a nossa identidade molda as novas mídias, em contrapartida, as mesmas moldam a nossa identidade. É um ciclo.
Essa percepção partiu de uma experiência pessoal do autor. Usuário assíduo do Facebook para mobilizações, Pariser notou que o conteúdo postado por alguns amigos estava sumindo da sua linha do tempo (timeline) na plataforma de rede social. Amigos estes de tendência mais conservadora, contrária a de Pariser, mais liberal.
A explicação do sumiço era simples – o algoritmo do Facebook, o EdgeRank, estava em funcionamento, tirando do campo de visão de Pariser links e comentários que não iam ao encontro de sua maneira de ver o mundo. Era a tal da “personalização”.
Apesar de não compactuar com os seus interesses, esses links eram importantes para Pariser. Para formar a sua visão, o pesquisador sempre gostou de ouvir opiniões contrárias. Não é por que não gostamos das mesmas coisas que uma pessoa não é relevante para a gente. Foi neste momento que Pariser constatou que o Facebook escondia dele algumas coisas. Sem deixar claro, a plataforma de rede social estava subtraindo informações importantes.
Segundo Pariser, os atuais sistemas de personalização, aos quais damos uma espécie de procuração para que sejam os nossos editores, têm dois problemas principais:
1) “Overfitting” (previsões generalizadas). Os atuais “algoritmos de personalização” não dão o benefício da dúvida. Não é por que eu “curti” duas vezes um filme de comédia romântica que sou fã do gênero. Para saber quem eu sou, o algoritmo deve testar essa hipótese várias vezes. Colocar um Blade Runner no meio das sugestões para ter certeza de que sou um fã de comédias românticas.
2) Não conseguem separar compulsão de informação de interesse geral. O que temos hoje é o consumo compulsivo de mídia. Por isso, nem sempre aquela matéria que é compulsivamente retuitada ou “curtida” é a mais importante para a gente.
Pariser reconhece que, historicamente, sempre consumimos aquele conteúdo que vai ao encontro dos nossos interesses. O problema é que o “filter bubble” insere uma dinâmica nunca vista. O primeiro detalhe é que esse “filtro” é invisível e você está obrigatoriamente nele, sem opção de escolha. Quando resolvemos assinar o NYTimes, tomamos a decisão de utilizar aquele filtro (mais liberal) para construir a nossa visão de mundo. Quando acessamos a Fox News, optamos por outro, mais conservador.
Com Google e Facebook é diferente. A agenda dos dois é opaca. Ninguém sabe direito como funcionam os seus algoritmos. É uma caixa preta. Posicionam-se como empresas neutras, “tecnológicas”, sem linha editorial, mas o próprio fato de utilizarem um algoritmo que define a relevância de uma informação já é, por si só, uma decisão editorial.
Além disso, a Google pode até não ser política, porém a própria missão da empresa, de organizar a informação do mundo e mantê-la acessível para qualquer um, carrega uma nítida opção moral e política – a democratização do conhecimento, antes restrito às elites, agora para todos indistintamente.
Apesar de focar mais em Facebook e Google, as observações de Pariser valem para qualquer produto que trabalha com sistemas de relevância – Amazon, Netflix, Flipboard.
No livro, o presidente da Moveon chega a ser pessimista em alguns momentos. Segundo ele, a internet ainda não cumpriu a missão de ser uma tecnologia pull (o usuário procura de forma autônoma a informação na rede). Ainda somos consumidores passivos de informação.
Hoje, as pessoas utilizam bem mais a internet como se estivessem assistindo a TV (tecnologia push). Sentam na frente do computador, abrem o Facebook e o Twitter e esperam que a informação chegue até elas. São passivas, o que é corroborado por aquela frase do consumidor pseudomoderno de informação – “Se a informação é importante, ela chega até mim”.
Isto é, foi-se o tempo da navegação mais ativa. Você digitava o endereço de um site no navegador, de outro, e mais outro, e ia navegando aleatoriamente, descobrindo por conta própria. Hoje, cada vez mais, o usuário faz menos, cabendo aos algoritmos mostrar as “notícias mais importantes” e as coisas supostamente novas.
O autor compreende o problema entre filtros de personalização e overload informativo. Muitas vezes, justamente para ter resultados mais relevantes, é necessário que a web tenha mais dados, visto que quanto maior o número de informações, mais inteligente fica o sistema. Discurso adotado pela Google e Microsoft.
Pariser também não nega a importância das ferramentas de personalização. Elas são causa e efeito de um processo maior de fragmentação do mercado (falar para um público específico), e da consequente abundância de informações. Hoje, o mercado é fragmentado não necessariamente por renda, mas sim por hábitos e interesses.
Esse processo começou muito antes do surgimento da web, mais especificamente quando as pessoas nos países industrializados começaram a mudar a percepção do que é importante para elas – deixaram de pensar apenas em necessidades básicas para se preocuparem em ter produtos menos despersonalizados, o que, por sua vez, abriu espaço, lentamente, para a autoexpressão, que hoje está bem presente nas plataformas de redes sociais.
A própria crítica aos filtros personalizados vem de muito antes. No entender de Pariser (foto acima), no final do século 19, em Notas do Subsolo, o escritor russo Dostoiévski já abordava o assunto – “quando tudo for calculado não haverá mais ruídos no nosso mundo”.
Para sair desse loop de informações que apenas ratificam nossa visão de mundo, Pariser não se posiciona eternamente contra os serviços de personalização, mas sim que sejam aperfeiçoados. Esses filtros deveriam expor seus usuários a tópicos fora da sua experiência normal – por hipótese, o Google poderia ter uma barra onde você pudesse fazer um equilíbrio entre informação personalizada e um fluxo de notícias diversas.
The Filter Bubble, What The Internet is hiding from you? é uma boa leitura para quem trabalha com o desenvolvimento de sistemas de relevância. Faz a gente rever muitas posições. Contudo, vale fazer duas observações sobre o livro de Pariser:
Ele trata plataformas de redes sociais como plataformas de mídia. Pariser enfatiza demais o fato de que as pessoas utilizam esse tipo de tecnologia para consumir conteúdo/notícias. Quem lê este blog sabe que não concordo muito com essa visão.
Acredito que plataformas de redes sociais são, acima de tudo, utilitários de comunicação. Assim como o telefone, as pessoas usam muito mais essas tecnologias para comunicação e conexão entre si do que propriamente para consumo de conteúdo/notícias. Ou seja, para mim, Mark Zuckerberg é bem mais um Alexander Graham Bell do que um Rupert Murdoch dos tempos atuais.
Outro ponto – o discurso de Pariser é nitidamente mais voltado para empresas do que usuários finais. O pesquisador deixa isso evidente no penúltimo capítulo, quando questiona a ética das empresas de internet.
Ecoando as palavras de Tim Wu, autor de Master Switch e professor da Universidade de Columbia, Pariser acredita que a internet criou novos intermediários. Para comprar livros, as pessoas passam pela Amazon. Para buscar informações, Google e Facebook intermediam grande parte do processo.
Segundo Pariser, estes já adquiriram tanto poder quanto os editores de jornais, donos de gravadoras e outros intermediários que os precederam. Algo que é comemorado no Vale do Silício, embora a questão da inevitável responsabilidade seja deixada em segundo plano.
Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Para o pesquisador, do mesmo modo que vender jornal não é o mesmo que comercializar qualquer produto, tornar-se um dos principais intermediários da comunicação e produção simbólica não é pouca coisa.
É certo que empresas de jornalismo e de internet, como Google e Facebook, buscam a acumulação de lucro, no entanto o serviço prestado por elas tem um forte impacto moral e social. Em outras palavras, são serviços com acentuado e indiscutível interesse público.
Por isso, tendo em mente que os desenvolvedores são os grandes construtores da plataforma pela qual a sociedade atualmente se desenvolve, a formação destes precisa mudar. Do mesmo modo que cursos de Humanas estão captando noções junto aos de tecnologia (vide o curso da Columbia que mistura jornalismo com ciências da computação), o inverso deve ocorrer.
Desenvolvedores precisam de uma formação mais humanista – ter noção de cidadania, esfera pública, de que têm um grande poder em mãos e precisam usá-lo com responsabilidade. Algo que, segundo Pariser, não vem acontecendo com frequência no Vale do Sílicio.
A responsabilidade dá lugar a uma certa arrogância de achar que o resto do mundo não entende as novas tecnologias, vistas como uma entidade à parte da sociedade. Esse “determinismo tecnológico” absolve as empresas da responsabilidade pelo que fazem (elas seriam meras figurantes dessa força maior à qual é inútil resistir). Ou seja, não precisam se preocupar com o efeito (e erros) do sistema que criaram.
Semelhante à indústria de fastfood que nos leva a consumir muita caloria, o serviço prestado por essas empresas nos faz consumir muita informação e que ratifica a nossa visão de mundo, enquanto que o ideal seria ter um consumo mais balanceado – menos informação e que traga visões comuns e destoantes.
Essa visão de Pariser não tira a importância de Facebook e Google. Pelo contrário, ao revelar o poder que essas empresas têm em moldar a nossa identidade, mostra que elas e outros pioneiros conseguiram o que queriam – transformar a internet na principal plataforma de comunicação do nosso tempo.
Veja também: O email nosso de cada dia
Crédito das fotos: Marshall Astor (1), R. Maxwell (2), Aithom (3) D.Reichardt(4), Kris Krug (5), divulgação
Finalmente, neste final de semana, assisti a Erasing David, filme documentário que fez bastante sucesso na web no finalzinho do ano passado, e que trata de dois temas bem atuais – privacidade e abundância de dados.
Erasing David é protagonizado e dirigido pelo inglês David Bond, 39 anos, conhecido na área de mídia na Inglaterra (trabalhou para BBC).
No documentário, Bond tenta sumir durante 30 dias. Para isso, apaga informações pessoais em sites e plataformas de redes sociais, evita usar o celular, o cartão de crédito e deixar outros rastros pessoais. Nem a sua mulher que, no início do documentário, está grávida de 7 meses sabe para onde ele vai.
Bond contrata dois detetives para tentar pegá-lo. Ambos experientes, entre os clientes têm grandes empresas e escritórios de advocacia na Inglaterra.
É um documentário/experimento, estilo Super Size Me. Tem um quê de protesto.
A intenção de Bond é mostrar o quanto deixamos rastros, informações cruciais no dia a dia e que podem ser utilizadas por terceiros, além claro também o quanto é difícil atualmente para um cidadão passar por anônimo frente a governos e empresas.
A motivação para produzir o filme vem de um caso pessoal.
Semelhante a muitos cidadãos ingleses, em novembro de 2007, Bond recebeu uma carta do governo britânico, informando que o Child Benefit Office, responsável pelo subsídio dado a pessoas com filhos recém-nascidos, havia perdido CDs não somente com seus dados pessoais, mas com informações sensíveis sobre a sua filha.
O caso preocupou Bond e o deixou com a pergunta na cabeça – o quanto o governo e as empresas guardam de informações sobre a gente?
O filme mostra antes, durante e após o sumiço de Bond. Antes, o inglês conversa com psicólogos e especialistas em segurança da informação.
Durante o sumiço, Bond sai da Inglaterra se embrenha na Europa. O esconde-esconde entre os investigadores particulares e Bond é intercalado com depoimentos de especialistas, além de pessoas que tiveram seus dados pessoais usados de forma indevida.
O ponto alto do documentário acontece quando Bond requer a 80 empresas e instituições ligadas ao governo britânico relatórios a respeito de informações pessoais que têm armazenadas.
Pilhas e pilhas de papéis chegam à sua residência. O mais chamativo é o relatório enviado pela filial da Amazon na Inglaterra. A loja online guarda dados até dos amigos para os quais ele enviou presentes. São inúmeras páginas com dados pessoais de Bond.
O documentário começa bem, mas depois desanda. Bond acaba usando o celular e indo a lugares óbvios, como a casa dos pais.
E o mais decepcionante. Erasing David se propõe a discutir a quantidade de dados que, espontâneamente, colocamos na rede. No entanto, o que os detetives menos usam são as informações online de Bond, mas sim o tradicional método de vasculhar o lixo da casa de sua esposa.
O filme, sem querer, mostra como o lixo que produzimos diariamente é revelador. Lá estão informações sobre o que comemos, quantas pessoas estão em casa, onde trabalhamos, lugares e lojas onde estivemos recentemente.
Do meio para o final do documentário, é bem mais interessante acompanhar o trabalho detalhista dos investigadores do que a fuga mambembe de Bond.
Em suma, Bond perde a oportunidade de fazer uma discussão mais consistente e diferenciada sobre privacidade. Explora pouco identidade e reputação, dois temas relacionados à questão da privacidade.
Contudo, Erasing David tem um lado positivo. O filme nos ajuda a refletir sobre a falta de ponderação no atual debate sobre privacidade e excesso de dados.
De um lado, a paranóia. Do outro, a discussão simplória com base na premissa de que a privacidade morreu e não temos mais o que fazer (Erasing David fica mais no lado da paranóia. O próprio Bond fica paranóico no meio do documentário, acreditando que pessoas comuns estão perseguindo-o).
Esse tipo de divisão se reflete nos atuais debates sobre privacidade, muitas vezes esquece-se que os dados são adquiridos de duas formas – de forma anônima, um dado não poder ser ligado a um indivíduo. E de modo identificável, são associados a uma pessoa.
Na maioria das vezes, passa-se a impressão de que existe apenas e tão somente um tipo (a Slate abordou o assunto em recente artigo).
Outra questão é que existem abusos, mas dificilmente vemos o outro lado.
Graças ao Google armazenar dados sobre as buscas, podemos ter aplicativos como o Flu Trends, capaz de prever quando uma epidemia de gripe afetará uma região.
No Foursquare, deixamos muitas informações pessoais disponíveis, mas em compensação ganhamos conectividade e atenção dos amigos.
Reclama-se das milhares de câmeras de segurança espalhadas pelas grandes cidades, mas elas ajudam na redução e até na solução de crimes. Há dois pesos e duas medidas.
Nessa história toda, o certo é que, historicamente, por necessidade de conectividade, reconhecimento e atenção, as pessoas baixam a guarda da privacidade, mas isso não significa que ela morreu.
Veja também: “The Social Network” é sobre mobilidade social

Inbox Love é o nome de uma das conferências que aconteceu neste final de semana no Vale do Silício. O evento foi dedicado a discutir uma única coisa – a tecnologia de email.
O assunto chamou a minha atenção. Para mim, email é uma das tecnologias mais universais de comunicação. Simples de utilizar, atinge uma extensa faixa demográfica e “conversa” com diversos serviços de internet e dispositivos.
Segundo o Financial Times, dois assuntos dominaram o evento
O primeiro – como lidar com a avalanche diária de emails, tema que vem quebrando a cabeça de diversas startups nos últimos anos.
Jeff Lawson, da Twilio, fez a sugestão de priorizar o email de acordo com o direcionamento. Emails direcionados diretamente a você têm alta prioridade; as mensagens em que você é incluído em uma lista (via cc) ganham prioridade média; já os chamados “broadcast emails” – newsletter – adquirem o rótulo de baixa prioridade.
Joshua Baer, diretor geral do Other Inbox, propôs a criação de um padrão que indicasse a relevância de um email a partir da data de envio ou recebimento. Emails de convites para um evento se autodeletariam após a realização do mesmo. Algo semelhante aconteceria com mensagens de promoções ligadas a certas datas, como Dia dos Namorados. Após um período, outras mensagens também poderiam se autodeletar, como os alertas de redes sociais.
Outro assunto da Inbox Love foi de que nossas caixas de emails dizem muito sobre a gente.
Jeff Bonforte, da Xobni, fez uma definição interessante. Nossa caixa de email é uma espécie de “Wikipedia pessoal”, lá estão informações com quem conversamos mais, quais são nossos assuntos preferidos, redes sociais online das quais fazemos parte, onde fazemos compras online.
Bonforte não é o primeiro a seguir essa linha de pensamento. Os pesquisadores Nicholas A Christakis e James H. Fowler, autores do livro Poder das Conexões, e a brasileira Fernanda Viégas, da Google, já haviam demonstrado em seus estudos que nossos correios eletrônicos têm informações valiosas sobre as nossas interações sociais. É possível fazer um verdadeiro raio-X de uma pessoa simplesmente analisando as mensagens e o seu padrão de uso de email.
É por essas e outras que eu digo – email é uma das coisas mais íntimas que temos online.
Veja também: Minha vida, meus emails e eu
Hoje em dia, as pessoas escrevem mais não porque tenham algo a dizer, mas pelo motivo de que ficou bem mais fácil publicar conteúdo. Somente essa provocação do jornalista e escritor John Freeman já vale a leitura de seu último livro “The Tyranny of email” – em português, A Tirania do email (256 páginas/Editora Scribner).
Freeman acredita que, quando era mais caro se comunicar, as pessoas pensavam duas vezes antes de enviar uma mensagem, preocupação que não existe mais hoje em dia. Nunca foi tão fácil se comunicar e publicar conteúdo. Segundo Freeman, isso é bom, mas engana-se quem acha que estamos melhor informados e melhor conectados como seres humanos. Como se, historicamente, quantidade e facilidade fossem sinal de qualidade.
Aliás, segundo o escritor, escrever ficou mais fácil, contudo ler ficou mais difícil devido não à enorme quantidade de informações disponíveis, mas sim às constantes interrupções a que estamos sujeitos no dia a dia – um email novo que chega, uma janela pulando no messenger, uma mensagem de voz deixada no celular.
Para Freeman, essas constantes interrupções tendem somente a crescer. Antes, mensagens em plataformas de redes sociais ficavam restritas ao desktop, hoje elas estão no celular, que vai com a gente para qualquer lugar.
Da mesma forma, bem no início, os emails eram restritos ao ambiente de trabalho, ficavam no computador do escritório, ao passo que hoje, com os smartphones, eles entraram dentro de casa. O email foi “domesticado”. Você checa emails quando acorda, no intervalo do programa da TV e até mesmo enquanto conversa com o seu o filho ou namorada (uma propaganda recente da Microsoft inclusive explora esse hábito).
Com isso, além de quebrar a barreira entre vida pessoal e profissional, a internet tem criado uma cultura de “disponibilidade 24 horas”. Uma ansiedade por comunicação. Você sempre tem que estar disponível. Demorou mais de 24 horas para responder a um email? Pode ter a certeza de que vai gerar um abalo no relacionamento com o remetente do email.
Neste ponto, Freeman é certeiro em sua crítica. Parece que, de uma hora para outra, as pessoas se esqueceram de que as outras têm mais coisas a fazer do ficar pendurado em emails e plataformas de redes sociais – família, filhos, namorada(o), dormir ou simplesmente não falar com ninguém. As pessoas não estão disponíveis 24h.
E mais, essa “cultura da disponibilidade 24h” tem gerado um excesso de informações e exigido uma postura sobrehumana da maioria dos profissionais, tipo de habilidade que, num passado não muito distante, era cobrada apenas de profissionais específicos, como professores, governantes e jornalistas.
O excesso de mensagens que recebemos todo dia não exige que sejamos multitarefa, mas sim “multisentimental”. Respondemos um email de maneira dura para um funcionário pouco dedicado; daqui a pouco, fazemos o mesmo, mas de forma calma para um cliente. Ou amorosa para uma namorada; de modo informal e engraçado, para um amigo.
Enfim, na hora de se comunicar passamos de um estado emocional a outro. Tudo isso em questão de segundos. Não é à toa que depois de “limpar” a nossa caixa de email, nos sentimos cansados, não fisicamente, mas emocionalmente.
Neste momento, o discurso de Freeman lembra muito o do Jaron Lanier, autor de “Você não é um aplicativo” – nós é que devemos moldar as tecnologias, e não o contrário.
Para mim, a sensação ao ler “The Tyranny of email” foi a mesma de “Free”, de Chris Anderson. Esperava encontrar um livro planfetário, com o autor tentando empurrar uma visão a qualquer custo, porém me enganei no final. Anderson, na realidade, faz um histórico do modelo gratuito, indicando pontos negativos e positivos.
Da mesma forma, Freeman faz um histórico da comunicação escrita, que tem sido pontencializada nos últimos anos com o uso do email e sistemas de mensagens em redes sociais. Aliás, a linguagem escrita e a falada estão se aproximando muito.
Portanto, o título do livro (Tirania do email) é mais provocativo do que descritivo. Na realidade, o escritor junta opinião, história e a sua própria experiência para refletir um pouco sobre como a comunicação escrita e em alta velocidade tem nos afetado.
Uma das primeiras observações é por qual motivo checamos toda hora o email ou o perfil em uma rede social? Simplesmente por causa de uma das necessidades mais antigas do homem – sensação de pertencimento.
Uma caixa de email ou um perfil numa plataforma de rede social com mensagens novas nos proporciona a sensação de que somos importantes para outras pessoas, estamos vivos. Reforça o senso de que somos o centro do mundo.
Por sua vez, a história do telegrama e do email nos ensina que, ao se desenvolver o caráter viral de um meio, ele se torna ferramenta de marketing, mas também de contraventores.
Em 1887, articulistas do NYTimes publicaram artigos preocupados com a propaganda política que poderia vir pelo correio. Por outro lado, a falta de comunicação face a face proporcionada pelo correio atraiu os interesses de criminosos.
Era comum receber telegramas e cartas anônimas xingando a sua esposa ou filhos. E os jornais eram repletos de casos de pessoas que recebiam falsas correspondências de banco e de empresas pedindo informações bancárias (qualquer semelhança com os atuais golpes de phishing não é mera coincidência).
Neste contexto, foram justamente os jornais os mais afetados com o surgimento do telegrama, das cartas e, mais recentemente, do email. Nos anos 30, a partir do momento em que o correio americano liberou o envio de propagandas, os jornais começaram a se sentir ameaçados, pois tinha-se medo de que as empresas passassem a utilizar mais o “correio marketing” do que os espaços publicitários nos jornais. Afinal de contas, o primeiro tinha o caráter de ser viral, era mais barato e prometia “atingir diretamente o consumidor”.
Com o incremento dos telegramas, as informações começaram a circular não apenas com mais velocidade, mas também em maior quantidade. Para se ter ideia, antes do telegrama, demorava 5 semanas para chegar uma notícia enviada por um correspondente de um jornal londrino em Nova York. Com mais conteúdo, muitos jornais passaram a ter edições diárias. Com a vinda da internet, passaram a funcionar 24 horas por dia/7 dias por semana.
No entanto, o efeito mais profundo viria depois com o surgimento do email, que mudou um pouco a nossa noção de relevância de informação. Segundo Freeman, a nossa caixa de email tem substituído o “jornal da manhã” como artifício de contexto.
O que é mais importante para você de manhã? Ou melhor, o que você faz primeiro? Abrir o seu email, Orkut, Twitter ou conferir o “jornal do dia”?
Se você checa primeiro o email, saiba que isso é a coisa mais natural. Toda manhã, é ele quem nos “indica a nossa posição no mundo” – atividades que temos que fazer, contas a pagar, lembrete do aniversário de algum amigo, o que de importante vai acontecer no dia.
Em outras palavras, a caixa de entrada de emails, Facebook, Orkut ou Twitter são os primeiros fluxos de informação com os quais temos contato no início do dia e não mais o “jornal da manhã”. Contudo, isso não quer dizer que não tenhamos notícias nessas plataformas (até temos, mas é um tipo de informação que foi pré-filtrada pelo nosso círculo social que, geralmente, possui critérios de revelância diferentes do tradicionalmente adotado pelos jornais).
O lado negativo de “The Tyranny of email” está em ser pretensioso demais, o que atrapalha um pouco a análise do autor. Freeman chega a escrever uma carta aberta, um manifesto por uma comunicação mais lenta. No entanto, passa longe de criar algum tipo de movimento.
Devagar, de Carl Honoré, devidamente comentado neste blog, e que aborda o mesmo tema, é bem mais profundo e nos faz refletir bem mais sobre o nosso estilo de vida. É mais interessante ver “The Tryranny of email” como um livro sobre a história da comunicação escrita.
Outra questão é que as dicas de Freeman para lidar com excesso de emails caem no lugar comum. Ele é certeiro ao mostrar que, acima de tudo, essas soluções devem ser comportamentais e não tecnológicas.
Entre elas, utilizar o campo assunto de forma objetiva para fazer perguntas diretas, que precisem de respostas curtas, do tipo “Vamos almoçar amanhã às 12h30?”. Sempre deixar claro que não é preciso responder a uma mensagem, assim você evita receber coisas do tipo como “ok”, “obrigado”; e o mais importante: nunca checar o email antes de dormir, dependendo da mensagem que chegar, pode ser que você perca uma boa noite de sono.
No final das contas, apesar das críticas à comunicação escrita e em alta velocidade proporcionada pela internet, que se reflete no uso do email, Freeman está longe de ser um ludita. Ele entende que, além de exigir uma habilidade sobrehumana, todo esse fascínio pela velocidade leva-nos a perder um dos principais benefícios da internet, que é proporcionar uma experiência mais social e humana.
Temos a impressão que estamos ganhando, mas, na realidade, estamos perdendo muito do potencial da internet.
Veja também: Por uma internet em tempo giusto
Crédito das fotos: HowNowDesign, Joeruny, Grigaid e divulgação
Email é igual à web e à mídia impressa. Tem 7 vidas. Toda hora a sua morte é decretada, mas ele continua vivo, firme e forte. Não é sem motivos. O email é uma das tecnologias mais universais. Simples de utilizar, atinge uma extensa faixa demográfica. E diferente dos atuais sistemas de mensagens em redes sociais que não se falam, o email “conversa” com diversos outros serviços.
Se uma pessoa utiliza o Gmail, ela pode enviar uma mensagem para quem, por exemplo, usa o Hotmail, e vice-versa. Sem firulas ou restrições.
Até hoje, 39 anos após a sua criação, o email é a aplicação de internet mais utilizada e o meio mais usado para compartilhar conteúdo na web.
Além disso, nossos correios eletrônicos têm informações valiosas sobre as nossas interações sociais, bem mais do que os chamados sites de redes sociais. Segundo os pesquisadores Nicholas A Christakis e James H. Fowler, autores do livro O Poder das Conexões, o Gmail diz bem mais sobre a gente do que o Facebook ou o Orkut. O primeiro tem dados valiosos, inseridos de forma passiva todo dia pela gente e que podem ser utilizados para formar redes.
Mediante dados de email de uma pessoa, podemos saber com quem ela conversa mais, quais são seus assuntos preferidos, redes sociais online das quais faz parte, onde faz compras online etc. Email é uma das coisas mais íntimas que temos online.
Fernanda Viégas, pesquisadora brasileira atualmente na Google, ficou conhecida por estudos que mostraram essa conexão entre pessoas e emails. Em seus projetos Themail e PostHistory, milhares de mensagens de correio eletrônico foram analisadas e transformadas em infográficos. A partir do experimento, foi possível montar um verdadeiro raio-X de cada pessoa simplesmente analisando as mensagens e o seu padrão de uso de email.
Uma das principais vantagens do email é a sua capacidade de arquivar/registrar/catalogar conversas. Praticamente todas ficam salvas no computador e/ou em algum servidor. Podem ser buscadas e recuperadas a qualquer momento. Por isso, conversas importantes acontecem via email e não por meio de scraps e tweets. Essa dinâmica do email é tão importante que a Google tentará aplicá-la às ligações telefônicas por meio do Google Voice Gmail.
Vale pensar no efeito em longo prazo do uso desse serviço que integra o Google Voice ao Gmail. Você não associará uma pessoa a um número de telefone, mas a um ID ou endereço de email. Ou seja, para fazer uma ligação, você não digitará um número, mas o nome da pessoa. Não será nenhuma surpresa se num futuro muito próximo for possível armazenar, catalogar, transcrever, buscar e recuperar ligações, assim como já fazemos com os emails.
Contudo, nem tudo é animador e tão promissor para quem utiliza email diariamente. Spam e o excesso de informações são dois problemas intermitentes. Situação que, em 2008, levou Jakob Lodwick, cofundador do site de vídeos Vimeo, a fazer um famoso desabafo, com o qual muitos se identificaram na época.
“Minha caixa de emails me deixa tão furioso. Sua existência me irrita. É uma das coisas mais íntimas da minha vida que eu não tenho controle. Sempre está bagunçada e sempre precisa da minha atenção”
Em entrevista ao NYTimes na semana passada, a pesquisadora Hilary Mason, especializada em data mining, mostrou que, em parte, isso acontece por que, nos sistemas de emails, os critérios atuais de relevância são falhos. Nem sempre o email mais recente é o mais importante.
Por isso, Mason está desenvolvendo um sistema em que a semântica e o tratamento que você dá às mensagens são levados em consideração. Se você demora muito para responder a um email de uma pessoa, se já conversou com ela antes, qual é o conteúdo da mensagem etc. A ideia é levar tudo isso em conta na hora de definir a prioridade de uma mensagem.
E, nesta semana, a Google já sinalizou uma interessante mudança com o anúncio do lançamento da Priority Inbox (caixa prioritária), serviço que promete separar automaticamente as mensagens de email mais importantes, sem necessidade de criar regras de recebimento.
O lançamento mostra a atualidade dos sistemas de relevância. Sempre que há um excesso de informações e de conectividade, tecnologias de filtragem são vistas com mais interesse.
Para lidar com a avalanche diária de informações, há um bom tempo, os jornais têm o seu próprio e tradicional sistema de relevância, que permite indicar o que de mais importante aconteceu ou está acontecendo. O Twitter e o Facebook, por sua vez, possuem outros critérios de relevância e atuam como filtros sociais (seus amigos indicam o que é mais importante).
O novato Paper.li vai mais além – tenta ser “um filtro do filtro”, um sistema que indica quais tweets mais relevantes foram publicados nas últimas 24 horas (Wired, Guardian e aqui, no Brasil, o site de treinamento web Tableless já estão utilizando oficialmente o serviço).
A Priority Inbox do Gmail segue a mesma dinâmica e cria um sistema de relevância na nossa caixa de entrada de emails. Separa aquilo que merece leitura e respostas rápidas.
A nova caixa do Gmail ainda está em testes (a previsão é que, na semana que vem, seja liberada para todos os usuários). Um lado negativo da Priority Inbox pode estar em priorizar mensagens de acordo com quem envia mais mensagens para você, critério pouco seguro de relevância. Não é por que a pessoa envia emails todo dia para você que é relevante. Talvez Mason esteja correta. Outros critérios também devem ser utilizados.
O anúncio do lançamento causou bastante burburinho na web. Não é sem motivos, a Google está mexendo numa das coisas mais íntimas que temos online.
Veja também: Site permite editar vídeos no próprio navegador
Pesquisadores do Palo Alto Research Center (PARC) estão quebrando a cabeça para encontrar soluções sobre como lidar com a avalanche diária de informações do Twitter. Como saber o que aconteceu de mais importante no Twitter sem a necessidade de ler cada mensagem?
Os pesquisadores lançaram o protótipo do “Eddi Project“, aplicativo que funciona como um filtro, mostrando a você o que de mais importante é publicado no Twitter em sintonia com o que você posta e com quem você interage no serviço de microblogging. A ferramenta também separa as mensagens por tópicos.
Erickson Silva, leitor deste blog, enviou por email a dica do Paper.li, site mais simples, mas que segue caminho parecido ao de “Eddi Project” (funciona como um paliativo para o overload informativo). Produz um resumo diário do Twitter em formato de jornal (portal de notícias).
O site mostra o que foi publicado, de mais relevante, em 24 horas, no Twitter com base em um perfil. Por exemplo, o meu perfil gera o jornal diário http://www.paper.li/tdoria
Pelos testes, o serviço acerta em cheio. Na última edição, por exemplo, em destaque o post sobre Viral Loop e, nas “submanchetes”, o texto de Jakob Nielsen sobre a usabilidade do iPad e informações sobre o bug no Twitter, assuntos que foram e voltaram várias vezes na minha timeline nesta segunda-feira.
O Paper.li parece ser bem útil para pessoas que não têm tempo nem paciência para ficar o dia inteiro pendurado no Twitter, mas querem saber o que de mais relevante foi publicado no site (em sua timeline) nas últimas 24 horas.
Veja também: Como o Twitter e a TV se complementam