Esse é um texto que as pessoas sempre pedem que eu faça.
Compartilho com vocês cinco pontos que chamaram a atenção em 2011 na área de mídia e tecnologias emergentes (não necessariamente na ordem de importância).

1) Monetizar a audiência e não o conteúdo
Em 2011, o NYTimes.com impressionou muita gente ao apresentar resultados positivos com a medida de adotar um sistema de cobrança.
Quem não é assinante do jornal pode ler de graça 20 artigos por mês. Mais do que isso, é convidado a assinar um plano de acesso. O conteúdo via sistemas de busca, blogs e plataformas de redes sociais continua com acesso gratuito e sem limite de leitura
Normalmente, quando se pensa em sistema de cobrança, logo vem à memória o modelo mais tradicional, ainda adotado no Brasil, e que já se mostra superado em diversas partes do mundo – o de quebrar o conteúdo em dois – pago e gratuito. Neste caso, o critério para cobrança é o conteúdo.
No caso do NYTimes, o critério de cobrança não é pelo tipo de conteúdo (analítico ou hardnews, especializado ou generalista, exclusivo ou não), mas sim pelo tipo de audiência (quem lê mais, quem lê menos; quem é mais fiel ou não). Ou seja, o jornal busca explorar melhor a base mais fiel de leitores da publicação, que, de uma forma ou outra, pagaria pelo acesso.
O modelo mantém o conteúdo aberto e ainda converte em pagantes a base mais fiel de leitores. Em outubro, o Independent anunciou que adotaria o mesmo modelo, totalizando 3 sites de notícias que utilizam a dinâmica de monetizar a audiência e não o conteúdo (NYTimes, Financial Times e Independent).

2) Interfaces web e mobile mais integradas e homogêneas
Para suportar experiências mais intuitivas e unificadas, aos poucos, as empresas estão mesclando a visão mobile com a desktop. Como consequência, elementos de uma estão na outra e a experiência entre os dispositivos – smartphones, tablets, desktop – está cada vez mais uniforme.
Em 2011, isso se refletiu com o lançamento do sistema operacional Mac OS Lion. A Apple trouxe diversos elementos da interface dos tablets para o desktop.
A Microsoft seguiu caminho idêntico ao apresentar o Windows 8, que levou para o desktop vários recursos visuais do sistema Windows Phone 7.
Do mesmo modo, na área de mídia, a BBC lançou uma nova versão de sua home que mistura elementos do desktop com o mobile/touch.
Para reforçar a tendência, no finalzinho do ano, o Twitter também seguiu dinâmica parecida ao lançar o seu novo layout, que mescla ainda mais a experiência mobile com a desktop.
3) Do “jornalismo cidadão” à curadoria de conteúdo
Quem é leitor antigo deve se lembrar que, há uns três anos, chegamos à conclusão que uma hora as pessoas iriam desacelerar a dinâmica de enviar conteúdo para os chamados “sites de jornalismo cidadão”. Era um modelo que não iria se sustentar à medida que as pessoas percebessem que, por estarem mais perto de suas redes de contatos, plataformas de vídeos e redes sociais poderiam fornecer bem mais visibilidade e impacto ao conteúdo publicado.
Em 2011, o modelo de sites como CNN iReport, em que você espera que o leitor envie o conteúdo, perdeu ainda mais espaço para o sistema de curadoria no jornalismo. Cada vez menos, as pessoas enviam conteúdo para os “sites de jornalismo de cidadão” e, cada vez mais, enviam para as suas redes de contatos mais próximas, que, no caso, estão no Twitter e no Facebook .
Com isso, os jornalistas são obrigados a ir atrás desse conteúdo e integrá-lo à cobertura de um assunto, reforçando assim a sua habilidade de curador de conteúdo.
O site Storify reflete bem isso. Em 2011, foi eleito um dos mais inovadores na área de jornalismo. Ele permite que você contextualize, destaque e separe o melhor conteúdo publicado nas plataformas de redes sociais sobre um determinado assunto.

4) Consumo simultâneo de conteúdo entre dispositivos
O conceito de segunda tela dominou o noticiário de mídia e tecnologia em 2011. Por trás da ideia, existe uma dinâmica maior, que é o consumo simultâneo de conteúdo entre dispositivos. Enquanto você assiste à TV (primeira tela), acompanha no celular ou tablet (segunda tela) informações adicionais sobre o que está passando na televisão.
Fox, BBC, ABC, ESPN e outras grandes emissoras de TV trabalharam com o conceito. Durante a transmissão do Oscar 2011, houve uma disputa para ver quem dominava a segunda tela.
Ademais, neste ano, diversos estudos indicaram que, com os aplicativos de segunda tela, as pessoas assistem mais à TV e sentem-se mais envolvidas com o conteúdo do programa de TV.
Segundo Lori MacPherson, da Walt Disney Studios, o conceito de segunda tela é um “game changer” no mercado. Neste ano, o grupo de mídia lançou diversos aplicativos de segunda tela para serem utilizados enquanto uma pessoa assiste a um filme.
5) Outposts para estender plataformas de conteúdo
O pesquisador de mídia Chris Brogan fala sobre a necessidade das empresas adotarem outposts – “pontos fora do eixo central de sua presença online onde as empresas podem se conectar com novos consumidores, informações e ideias”.
Segundo Brogan, outposts permitem não somente que sua empresa estenda a sua presença online, fazendo com que o seu conteúdo fique mais visível, mas também se envolva em conversas que estão acontecendo fora do eixo central de sua presença online.
Outposts nada mais são do que perfis em plataformas de redes sociais e blogs. Ou melhor ainda, pensar de modo distribuído. A presença das empresas nestes pontos deve ser um mix entre fidelizar/conversar com os consumidores e levá-los para o eixo central de sua presença online.
Em 2011, com o lançamento do novo sistema de aplicativos, que rodam dentro da própria plataforma de rede social, o Facebook facilitou o processo que o próprio Brogan chama de “crosspolinização” de conteúdo.
Veja também: As cidades mais digitais em 2011
iReport da CNN, um dos poucos projetos remanescentes da onda de “sites de jornalismo cidadão”, completa 5 anos.
A CNN produziu o vídeo acima com algumas das mais importantes contribuições.
Em 5 anos, o projeto teve altos e baixos.
Ponto alto. Em 2007, quando ganhou projeção ao publicar um vídeo que captou os sons dos tiros do massacre em Virginia Tech.
Ponto baixo. Em 2008, quando foi usado como ponto de partida para a propagação da falsa informação de que Steve Jobs havia sofrido um ataque cardíaco, o que, na época, colocou a credibilidade do site em xeque.
Veja também: Frases do Dossiê Universo Jovem da MTV
As eleições ainda não terminaram. Mas já ficou evidente que quem mais aproveitou o potencial da internet foram os militantes.
Foi a primeira vez que, efetivamente, a militância participou do processo eleitoral produzindo o seu próprio conteúdo. Vídeos no YouTube com montagens e edições a favor ou contra algum candidato, “twitaços” com hashtags combinadas e blogs com posts em defesa de um ou outro político fizeram parte dessas eleições.
É algo sem volta. Na próxima disputa eleitoral, será difícil encontrar um militante que não queira participar do debate eleitoral por meio da criação dos seus próprios vídeos, tweets, fotomontagens e textos.
Não sei quanto a você, mas na última semana , a minha timeline no twitter ficou cheia de hashtags a favor ou contra algum candidato.
Outro destaque foram os projetos de “mídia cidadã”. Na última eleição, eles existiam, mas ainda de forma tímida. Neste ano, eles são bem mais numerosos, muitos criados de forma espontânea, como, aliás, é a maioria das coisas mais interessantes que surgem na internet.
Alguns são projetos desenvolvidos por pessoas comuns, que tradicionalmente estariam fora do processo eleitoral ou da produção de notícias relacionadas ao pleito.
Muitos prometem continuar no ar. A maioria foi criada como ferramenta de fiscalização, e, justamente por isso, terá sobrevida após as eleições.
O Eu Lembro, por exemplo, busca minimizar um dos problemas típicos do eleitor brasileiro – a falta de memória. Você pode montar um perfil, indicar em quais candidatos votou e, caso eles sejam eleitos, receberá atualizações de suas ações. Foi desenvolvido pela Webcitizen.
O Extrato parlamentar, por sua vez, se propõe a ajudar os indecisos ou a reforçar as escolhas dos já decididos. Tem o objetivo de calcular a sua afinidade política com as ideias de diversos candidatos. A ferramenta foi criada pelo projeto Voto Aberto.
Da mesma forma, o site Repolítica ajuda a escolher um candidato de acordo com o seu perfil. Depois de responder a 8 perguntas, o site faz a sugestão de um candidato que mais tenha afinidade com as suas respostas.
Na parte de blogs, o Braziu, formado por ex-integrantes do histórico A Nova Corja, cumpriu o prometido e realizou uma cobertura diferenciada sem apoiar um candidato, ser de “direita ou esquerda”, mas criticando todos, além de realizar livebloggings abertos à participação de qualquer pesssoa durante os debates e a apuração dos votos.
Durante a votação neste domingo, o 48horas Democracia fez uma das coberturas mais voltadas para o debate. De modo bem informal, um bate-papo “quase conversa de bar” e aberto à participação ao vivo da audiência.
Partindo do slogan “Se você pode sujar a minha cidade, eu posso sujar a sua cara”, o Sujo a sua cara simboliza a vingança do eleitor que se incomodou com o excesso de material de propaganda política nas ruas. Muitas vezes irregular e poluindo as ruas. Mais um exemplo de como as coisas mais interessantes da internet surgem de forma espontânea.
O Sem Sujeira segue linha parecida. Funciona como um site denúncia. Os usuários podem enviar, direto do celular, fotos de propagandas irregulares e que se encontrem sujando vias públicas. Por meio de um mapa online, o site mostra o ponto exato onde está a propaganda.
Ainda relacionado à “sujeira” da propaganda política, no próprio domingo, dia da votação, o Projeto Redenção organizou um flashmob para limpar parte das ruas de Porto Alegre.
O Quanto vale seu candidato? parte de uma ideia simples, mas bem últil. Descobrir o patrimônio de um candidato. Os dados são do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), porém apresentados em uma interface mais amigável.
Em meio ao excesso de informações, os agregadores sempre têm um papel importante. O Politweets agrega os perfis dos políticos que são candidatos. A partir desses dados, produz alguns infográficos, como o de políticos com mais seguidores.
Um dos mais comentados é o Eleitor 2010, que tem o objetivo de maper os relatos de denúncias de crimes eleitorais (propaganda irregular, compra de votos, ofensas). As denúncias podem ser acompanhadas de fotos e vídeos. Na medida em que as denúncias chegam, algumas são verificadas pela equipe de voluntários do site. O Eleitor 2010 tem como base tecnológica o Ushahidi, também utilizado pelo Guardian. E é inspirado em um projeto que surgiu durante as eleições no Quênia, em 2007.
Nestas eleições, aconteceram várias tentativas de censurar a imprensa durante a cobertura eleitoral. O Centro Knight for Journalism in the Americas, ligado à Universidade do Texas, mapeou todas as tentativas de prejudicar o trabalho da imprensa.
O Vote na Web foi lançado durante o TEDxSP, antes mesmo das eleições. O site simula uma eleição em que você pode votar nos mesmos tópicos dos políticos. Essa simulação serve para que, no final, você possa confrontar os seus votos com os dos deputados e, a partir disso, descobrir com quais tem mais afinidade política.
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