Em um post em seu blog oficial, o Zite explica em detalhes como funciona o seu algoritmo e a dinâmica de entrega de conteúdo dirigido para milhares de pessoas todos os dias.
Para quem ainda não conhece, o Zite é um aplicativo para iPad que funciona como uma revista personalizada. De acordo com os perfis em plataformas de redes sociais, hábitos de leitura na web e assuntos preferidos, o Zite recomenda e apresenta conteúdos.
É um produto relativamente novo na arena do “Daily Me” – publicações digitais personalizadas de acordo com as nossas preferências. Tem menos de 1 ano.
Chama a atenção no post não o modus operandi do algoritmo do Zite, mas a forma como ele pode influenciar o que as pessoas consomem de informação e a sua maneira.
Qualquer ajuste no Zite muda imediatamente a matéria exibida para você, ao abrir, logo de manhã, o aplicativo pela 1ª vez.
Neste ponto, concordo com o pesquisador Eli Pariser, autor de Filter Bubble. A cada dia, desenvolvedores têm mais poder em mãos; como consequência, suas ações possuem, cada vez mais, acentuado impacto social. Quando o Facebook ou a Google fazem modificações nos algoritmos de seus produtos, não há somente uma mudança técnica, mas também uma relevante influência na forma como milhares de pessoas consomem informações durante o dia.
Ou seja, criar ou modificar um algoritmo não é mais uma questão estritamente técnica, mas sim algo que pode gerar efeitos sociais.
Na área de desenvolvimento, a frase do Tio Ben nunca esteve tão atual – “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.
Veja também: Criador da web é contra os encurtadores de url
Nesta quarta-feira, a Universidade da Columbia, que possui uma das escolas de jornalismo mais respeitadas do mundo, anunciou a criação de um curso de mestrado que mesclará disciplinas da área de Ciências da Computação com as de Jornalismo.
A intenção é ir além de “habilidades multimídia”, ensinar o jornalista a criar, programar e gerenciar softwares, a pensar também como um desenvolvedor e engenheiro de software.
A criação do curso, que ainda espera aprovação do Departamento de Educação, não deixa de ser reflexo do quanto a fronteira entre jornalismo e desenvolvimento de softwares está diminuindo.
Dependendo da forma como você trabalha com os dados, criar aplicativos também é fazer jornalismo. Afinal, software é mídia, como diria o investidor Fred Wilson.
Software é mídia não somente no sentido de que as pessoas atualmente acessam softwares como se estivessem acessando mídia, mas por que eles se tornaram o principal intermediário atual da comunicação e da produção simbólica.
O curso da Columbia é bem válido, mas, sem querer pegar no pé dos jornalistas, acredito que atualmente é mais fácil fazer um desenvolvedor/programador pensar como jornalista do que um jornalista pensar como desenvolvedor/programador, por assim dizer.
Reflexo disso foi quando comecei a estudar na Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec). Quando contava aos meus colegas de jornalismo que estava fazendo a Fatec, a primeira coisa que ouvia era – “Pô, desistiu da profissão!”. Por outro lado, quando falava para o pessoal da Fatec que tinha feito jornalismo, eles falavam: “As duas áreas têm bastante a ver. Trabalham com a questão de organização e hierarquização de informações e dados”.
Falo isso (sobre jornalistas e desenvolvedores) não somente por minha experiência na Fatec e em outros lugares, mas pelo que tenho acompanhado em “hack days“, como o Yahoo! Open Hack Day e o Transparência Hack Day, eventos em que, no Brasil, diga-se de passagem, é raro encontrar um jornalista, apesar de todo o papo de “cultura digital”, “colaboração”, “novos paradigmas” que começa a povoar o discurso dos “mais antenados” por aqui.
Para mim, a questão não é somente que o jornalista e o desenvolvedor/programador estão se aproximando um do outro. A coisa é mais profunda, é que desenvolvedores/programadores estão começando a pensar como jornalistas. Vide o último Yahoo! Hack Day Brasil, no qual existiu entre os “hacks” uma grande preocupação em criar relevância em meio a tantas informações, em tornar legível uma montanha de dados e informações.
Lá fora já é comum encontrar desenvolvedores que estão à frente, produzindo por conta própria produtos de jornalismo. Para exemplificar, cito dois. Nick Bilton, no NYTimes, e o desenvolvedor Alan Taylor, que toca em frente o premiado blog Big Picture, do Boston Globe.
Enfim, posso estar errado, mas a minha sensação é a de que teremos mais programadores-jornalistas do que jornalistas-programadores.
Veja também: O que aconteceu no Yahoo! Open Hack Day 2010
Crédito das fotos: Times Open
A postura de sempre pesquisar vem de muito antes, mas desde 1993, a BBC mantém uma divisão de “Pesquisa e Desenvolvimento“, gerenciada por uma equipe dedicada exclusivamente a criar novos produtos, estudar novas formas de convergir tecnologias, distribuir, armazenar e publicar o conteúdo produzido diariamente pelo grupo de mídia.
Da mesma forma que a indústria de alimentos ou de automóveis, de um tempo para cá, parte dos grupos de mídia vem tratando o investimento em pesquisa para criação de novos produtos como algo crucial para o seu futuro.
O New York Times, por exemplo, também possui um laboratório de pesquisa, que funciona como uma startup dentro do jornal. Nos últimos tempos, a equipe do NYTimes vem se dedicando a estudar os “novos leitores eletrônicos” – Kindle, iPad.
A novidade é que a BBC relançou o site de sua equipe de “pesquisa e desenvolvimento”. Ofertas de emprego, dicas de leitura, novos produtos. Tudo o que a BBC está pesquisando é reunido lá. Destaque para os vários relatórios que podem ser baixados.
Veja também: Parece uma “Apple do jornalismo”
No BBC Radio Labs, há um post bem completo sobre como a BBC desenvolve seus sites.

Depois de BBC e The Guardian, o NYTimes vai realizar o seu primeiro encontro com desenvolvedores.
Semelhante ao Open Hack Day, promovido pela Yahoo! em diversos países, durante um dia estudantes e desenvolvedores assistirão a palestras e oficinas.
O foco principal será nas APIs e na transformação do site do NYTimes em uma plataforma aberta de conteúdo. O encontro está marcado para o dia 20.
Além de incentivar a criação de aplicativos em torno do conteúdo do jornal, uma das intenções do NYTimes com o encontro é sondar possíveis desenvolvedores para trabalharem no site.
No ano passado, em certos eventos ligados a web nos EUA, era comum ver pessoas do NYTimes convidando os participantes a preencher uma ficha para concorrer a uma vaga como desenvolvedor.
Veja também:
Como hackear um portal de notícias

Encontro aconteceu na redação do jornal
O The Guardian, outro “jornal que não se vê mais como um jornal, mas uma plataforma de conteúdo”, promoveu recentemente o seu primeiro Hack Day.
É um evento de 24 horas com palestras e uma competição para incentivar estudantes e desenvolvedores a criar aplicativos em torno do conteúdo e dos serviços do site do jornal. É semelhante ao Open Hack Day, que o Yahoo! promoveu há duas semanas por aqui, no Brasil.
A competição foi comandada por Matt McAlister, ex-Yahoo! e atualmente diretor da rede de desenvolvedores do site do jornal britânico. McAlister foi contratado neste ano para acelerar a transformação do The Guardian em uma plataforma online (aberta) de conteúdo.

Diversos aplicativos foram criados, todos para serem utilizados dentro do contexto do jornal. Entre eles, os que chamaram mais a minha atenção:
=> um “hack” que permite bloquear certos comentaristas de matérias do jornal. Por exemplo, você pode bloquear aquele cara que sempre faz comentários nos artigos, mas que você não gosta muito.
=> jornalistas adoram citar números – 1 bilhão de reais, 100 mil carros – mas normalmente sem contexto. Um dos participantes criou um menu que aparece toda vez que esses números grandiosos são citados em uma matéria. O menu indica uma proporção e ajuda a dar uma noção melhor dos valores. Por exemplo, “50 mil reais, o que equivale ao salário de não sei quantos meses de um professor”.
=> um outro aplicativo que completa frases, do tipo “Chinese Democracy é…” e ele completa a frase com diversas citações já feitas no jornal em relação ao Chinese Democracy, disco do Guns and Roses.
Por fim, o vencedor foi um “aplicativo de tags” que permite brincar com palavras-chaves de matérias diferentes do jornal. Por exemplo, você pode arrastar a palavra-chave “economia” em cima de “Brasil”, e o aplicativo retorna a você todas as matérias relacionadas.
As fotos do post são de Matt McAlister
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