Falta mão de obra especializada na ‘web brasileira’

Romero Rodrigues, cofundador do Buscapé, e Paulo Castro, diretor geral do Terra Brasil, foram categóricos. Falta mão de obra especializada no meio digital no Brasil.

Segundo Castro, vivemos um momento de “gap” de recursos humanos. Falta gente até na área de telemarketing. Os poucos profissionais qualificados (com conhecimento técnico e que realmente entendem o meio) são muito disputados pelas empresas, destacou Rodrigues.

Os dois executivos foram palestrantes do 2º painel da 24º edição do Fórum da Liberdade, que acontece em Porto Alegre e tem como tema “Liberdade na Era Digital“.

Cada um falou por mais ou menos 15 minutos.

O diretor geral do Terra fez um comentário que eu gostei bastante – sobre o consumo simultâneo de conteúdo entre dispositivos (TV como tela principal e dispositivos móveis como 2ª tela), assunto que venho comentando há um bom tempo aqui, no blog.

Segundo Castro, pesquisas indicam que esse hábito já é comum entre os brasileiros, o que muda muitas vezes é o dispositivo usado para consumo simultâneo com a TV. Nas classes mais altas, tablets e laptops. Nas classes mais baixas, computadores que, na maiorias das vezes, ficam no mesmo cômodo da TV.

Romero, por sua vez, destacou a importância da curadoria. Segundo ele, cada vez mais, é difícil encontrar conteúdo de qualidade e relevante na web, por isso o que vai crescer daqui para frente é a informação com curadoria e análise.

O cofundador do Buscapé acredita que a web vive de ciclos e as pessoas voltarão a valorizar produtos com conteúdo primário, de qualidade e com boa produção.

No 1º painel do Fórum da Liberdade, o Lobão foi um dos palestrantes.

O músico falou sobre “liberdade individual”, mas acabou comentando a respeito de “música e internet”.

Lobão acredita que, no meio artístico brasileiro, o papel da internet é supervalorizado. Segundo ele, a principal plataforma de divulgação de música no Brasil ainda é o Faustão e as rádios. A internet tem um papel coadjuvante e, na realidade, ajuda a criar guetos.

“No Brasil, na área de música, a internet mostra, as rádio fazem o sucesso e a TV consagra. Ter um milhão de seguidores na internet não quer dizer que você vai imprimir a sua música na cultura brasileira”.

* Viajei a convite do Fórum da Liberdade *

Veja também: Hans Donner + Freakonomics: 1º dia do HSM Management

Crédito das fotos: Tiago Trindade

Publicado por Tiago Dória, em 12 de abril de 2011 (Terça-feira).
Categoria: eventos. Tags: , , , , , , ,

Frase da semana

Há dias em que o futuro não vale o esforço para se chegar até ele

John Perry Barlow,  pensador de cultura digital.

Publicado por Tiago Dória, em 19 de março de 2011 (sábado).
Categoria: frasedasemana. Tags: , ,

Esperamos mais das tecnologias do que das pessoas?

Nós esperamos mais das tecnologias do que da pessoa que está ao nosso lado, provoca Sherry Turkle, pesquisadora há 30 anos do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

Segundo Turkle, estamos cada vez mais decepcionados com as pessoas que estão próximas de nós (seja no trabalho ou em casa). E esperamos que as tecnologias façam mais por nós do que elas (enquanto que o correto deveria ser o contrário).

Alone Together (384 páginas/Editora Basic Books) coloca Turkle de volta ao centro das discussões sobre tecnologias de comunicação e cultura digital. Recém-lançado, o livro é resultado de 15 anos de pesquisas sobre comportamento e web.

Desconhecida das gerações mais recentes, a pesquisadora ganhou projeção nos anos 80, com o livro The Second Self: Computers and the Human Spirit, de 1985, um dos primeiros a analisar o efeito dos computadores no comportamento humano.

Life On the Screen veio 10 anos depois, em 1995. É considerado um dos livros mais otimistas sobre a questão das múltiplas identidades na web.

Dezesseis anos depois, o otimismo dá lugar a uma postura mais questionadora. Em Alone Together, Turkle adota um posicionamento mais crítico em relação às atuais tecnologias de comunicação. Postura essa cada vez mais comum entre pesquisadores e analistas (a hora em que a internet está mais presente no dia a dia, é normal que, em contrapartida, as pessoas questionem com maior intensidade os efeitos na sociedade, sejam eles positivos ou negativos).

Longe da frase de efeito que abre esse post, o mais interessante de Alone Together está nas observações que Turkle tirou de 15 anos da pesquisa sobre comportamento humano e web. Em seus estudos, a pesquisadora dissecou 3 gerações e como a web as afetou.

Uma das principais conclusões tiradas pela autora – o que mais fascina as pessoas com a comunicação via web é a possibilidade de maior controle sobre as conversas, e não a velocidade.

Com as plataformas de redes sociais, podemos encerrar um relacionamento na hora que quisermos, basta dar um “block”. No email, podemos responder ou descontinuar uma conversa quando for mais conveniente. No SMS, temos tempo de pensar em uma resposta.

Enfim, a web nos deu um controle maior sobre a conversação. Detalhe que explica porque adolescentes não gostam de receber ligações de telefone por voz. Na ligação telefônica, tudo acontece em tempo real, você não tem tempo de pensar em respostas ou graduar a emoção.

Para exemplificar, em entrevista à Turkle, um adolescente de 16 anos confessou que receber ligações telefônicas é muito incômodo, requer uma “espontaniedade além dos limites”. Você não tem tempo de pensar nas respostas. O melhor da comunicação via SMS, email ou mensagens em redes sociais está no fato de que ela acontece de acordo com o seu ritmo, você tem mais domínio sobre a conversa e muito mais sobre o que você diz.

Por isso, Turkle conclui que, na realidade, o que a web nos fornece é proteção. Nós gostamos de conversar, mas desde que seja no nosso tempo e a conversa sob o nosso controle. O que, cá entre nós, é uma ironia.

Hoje em dia, fala-se tanto em “comunicação em tempo real”, mas o que as pessoas gostam mesmo é de comunicação no seu ritmo – poder escolher quando responder, evitar o inesperado ou assuntos e pessoas que não vão ao encontro do que gostamos.

Por esses motivos, a comunicação via web é tão agradável.

Segundo a pesquisadora, esse cenário é desafiador, pois, na prática, o modelo usual de relacionamento/comunicação é mais complexo, envolve risco e negociação. Você não pode dar um “block” em seus pais ou no seu marido ou esposa de uma hora para outra.

A privacidade online é motivo de preocupação entre várias gerações. Mas, conforme nos mostra Turkle, essa preocupação se divide entre a ingenuidade e o ceticismo.

Os mais jovens acreditam que o Facebook, por exemplo, nunca utilizará os seus dados de forma abusiva pelo simples motivo de que que a plataforma de rede social foi criada e é gerenciada por pessoas também jovens – “gente como a gente” (há um senso de identidade entre os usuários e os criadores do Facebook. Isso ajuda na aceitação da rede social).

Outros beiram o ceticismo. Acreditam que as empresas abusam, mas não há muito o que fazer. É como dar murro em ponta de faca. Um caminho sem volta.

Neste ponto, o livro deixa evidente que na web as pessoas antes de tudo estão atrás de facilidade. Pouco importa se o Facebook tem pouco controle sobre a forma como os nossos dados pessoais são usados por terceiros. Enquanto o Facebook fornecer facilidade, essas questões ficam em segundo plano.

Alone Together se divide em duas partes. Parece dois livros diferentes em um. A primeira trata sobre robôs. A segunda, web e pessoas.

O interessante da primeira parte está quando Turkle mostra que antes os robôs substituíram o trabalho braçal nas fábricas, hoje eles substituem o “trabalho afetivo”.

Em países, como Japão, robôs têm se tornando um paliativo ao vazio emocional de idosos que passam a maior parte do tempo sozinhos. Não é à toa que o assunto do momento da indústria não é produzir robôs com movimentos, mas com emoções fiéis às do ser humano. É cada vez mais comum a venda de robôs que cuidam de idosos. Robôs estão virando fontes do que gostaríamos de receber dos “humanos”.

Na pesquisa de Turkle, um dos pontos mais relevantes está em desmitificar os chamados “nativos digitais”, que geralmente são retratados como quase super-heróis – inteligentes, conectados, empreendedores, mulitarefa, bem relacionados.

A pesquisadora mostra que, semelhante a outras gerações, eles têm medos e angústias. Os adolescentes pesquisados por Turkle demonstraram uma ansiedade muito grande em relação à reputação online, em como eles são vistos pelas outras pessoas (eles têm noção de que tudo o que fazem é registrado e, no futuro, poderá ser usado a favor ou contra eles).

Mais ou menos como hoje em dia há as empresas (o que eles estão falando da gente? Se eles falarem mal, será o fim? ), existem as pessoas ansiosas com a chamada social media

Colocar uma foto produzida no perfil é o de menos. Essa ansiedade se reflete em ficar horas na frente do computador, fazendo buscas em redes sociais e mecanismo de buscas para saber o que as pessoas estão falando dela. Ou ainda, e minuciosamente, escolher os itens que descrevem a sua personalidade em um perfil numa rede social.

O ponto mais crítico acontece quando usuários montam falsos perfis em redes sociais para saber o que as pessoas estão falando deles. Uma das práticas mais conhecidas é se passar por amigo de um amigo.

Turkle conclui que toda essa preocupação com a imagem faz com que o Facebook, por exemplo, seja, na realidade, uma “versão editada da nossa vida”. Nos apresentamos como gostaríamos que fôssemos e não como realmente somos.

Montar um perfil no Facebook é mais uma performance do que qualquer outra coisa.

Nesse ponto a crítica de Turkle remete a de Jaron Lanier, que, no livro “Você não é um aplicativo”, dispara que, além de reduzir a nossa noção de amizade, as plataformas de redes sociais padronizam a sua nossa presença online (o perfil de todo mundo segue o mesmo padrão visual).

Nestes 15 anos, a web não transformou somente as pessoas. A pesquisadora percebeu que duas palavras simples, e que dizem muito sobre a gente, foram banalizadas – comunidade e amizade.

Usamos a primeira para descrever qualquer grupo de pessoas que dividem um interesse comum, mesmo que neste grupo não exista qualquer senso de responsabilidade ou ajuda mútua.

A segunda é usada para descrever qualquer relacionamento na rede. Ou seja, aquela velha questão semântica de que, na verdade, temos “contatos” e não “amigos” nas plataformas de redes sociais.

No final das contas, acabamos confundindo amizade com conectividade. Não é por que estamos conectadas a 100 pessoas que essas 100 são amigas (o título do livro vem justamente de uma provocação neste sentido – “sozinhos e juntos ao mesmo tempo”. Às vezes, estar contectado ao Twitter ou a uma plataforma de rede social é como andar na avenida principal de uma metrópole. Ao mesmo tempo, estamos sozinhos e cercados de pessoas).

Ainda durante a sua pesquisa, Turkle (foto acima) detectou uma espécie de conflito entre gerações. Os mesmos adolescentes, com idades entre 14 e 16 anos, que passam horas enviando SMS, reclamam que os seus pais ficam o dia inteiro no celular, respondendo a emails e mensagens no Facebook e Twitter.

Frente à pesquisadora, muitos adolescentes confessaram que gostariam que os seus pais passassem menos tempo pendurados na web e mais com eles. Um deles chegou a afirmar que, quando for pai, não fará o mesmo com os filhos.

Reflexo de que talvez estejamos vendo uma adaptação cultural. Enquanto uma geração  ainda se lambuza com as novas tecnologias e facilidades proporcionadas pela comunicação em rede, a outra começa a questionar tudo isso (por que meu pai fica mais tempo na web do que comigo?), a enxergar os prós e contras, a aprender com os erros dos pais.

E é aí está uma questão que Turkle levanta sem querer. Muitas vezes, faz mais sentido questionar as pessoas do que as tecnologias. Será que uma pessoa que prefere ficar no celular do que com os filhos está preparada para ser pai?  E, no caso dos robôs e idosos no Japão, a questão não é por que não temos capacidade de produzir mais robôs para ficar com idosos, mas sim por que não existem mais pessoas dispostas a cuidar de uma pessoa idosa?

Outro detalhe que Alone Together nos lembra é que as expectativas que depositamos nas tecnologias dizem muito sobre nós. É, mais ou menos, como aqueles vídeos de futurologia que, volta e meia, eu publico aqui, no blog. Eles nos dizem mais como gostaríamos que fosse o presente do que realmente será o futuro.

Da mesma forma, as expectativas que depositamos nas publicações pessoais (blogs e microblogs), nos movimentos de dados abertos, nos gadgets dizem mais sobre como gostaríamos que fosse o presente do que sobre o que realmente ele é.

Apesar de seus questionamentos, Turkle não soa como ludista. Na realidade, a autora tem simpatia pelo que ela chama de “realtechnik”, linha de pensamento que é cética em relação ao progresso linear. Baseia-se na ideia de que devemos constantemente reconsiderar o que é triunfalista ou apocalíptico em relação ao modo como vivemos com as tecnologias.

E o que Turkle faz no seu livro é isso – questionar o que aconteceu nestes últimos 15 anos na relação entre pessoas e tecnologias de comunicação. Aliás, uma das mensagens que a pesquisadora tira de seus estudos neste período é a seguinte (parafraseando Shakespeare) -  ao mesmo tempo que nos “alimentam”, as tecnologias nos “consomem”, nos tiram algo. É uma via de duas mãos.

Veja também: Era uma vez um blog…

Crédito da foto: Maebmij, OOnaghs, Mauriz, JeanBaptiste

Publicado por Tiago Dória, em 15 de março de 2011 (Terça-feira).
Categoria: livros. Tags: , , , , , , ,

Frase da semana

Ser um nativo digital não significa que entenda como funciona a tecnologia, mas que tão somente a utiliza

Miguel del Fresno, durante o Congresso SMM, na Espanha

Publicado por Tiago Dória, em 5 de março de 2011 (sábado).
Categoria: frasedasemana. Tags: , ,

Frases do Dossiê Universo Jovem da MTV

Nesta semana, saiu o Dossiê Universo Jovem 5, estudo produzido pela MTV Brasil sobre como os jovens brasileiros consomem mídia.

A pesquisa foi feita com jovens de 12 a 30 anos, das classes A, B e C.

Dois pontos valem um comentário:

Um deles é que boa parte dos jovens (42%) assiste ao conteúdo da TV pela internet. O que não representa muita novidade se a gente pensar historicamente. Vale lembrar que a internet surgiu justamente para ser uma plataforma mais eficiente que a TV.

Portanto, se os jovens assistem cada vez mais TV na web, é sinal de que a internet está cumprindo a sua missão para a qual foi desenvolvida – ser uma plataforma de comunicação e de distribuição de conteúdo mais eficiente que as plataformas anteriores (TV, rádio e impresso).

O estranho seria se o contrário estivesse acontecendo a essa altura do campeonato.

Outra questão é que os jovens procuram o meio que é mais conveniente e não necessariamente o digital. De repente, em um certo contexto, ler uma revista impressa é mais conveniente do que ligar e abrir um laptop. Ouvir um rádio pode ser mais apropriado do que escutar um podcast no celular.

Existe um mito de que as pessoas querem somente as mídias digitais. Na verdade, as pessoas buscam facilidade. O que acontece é que, na maioria das vezes, o digital é quem atualmente oferece melhor essa facilidade – rapidez, baixo custo, opções.

Porém, para entender como os jovens consomem mídia, melhor do que checar números é ler as frases dos entrevistados. Separei algumas.

Eu queria ter uma entrada USB na minha cabeça

Masculino, 15 anos, classe A, Porto Alegre

Internet é uma mistura de telefone, com carta e TV.

Feminino, 15/17 anos, classe C, Recife

De certa forma até a gente acaba sendo mídia, você vê uma notícia importante e tenta passar para as pessoas. Nesse sentido, eu também sou uma mídia.

Feminino, 15/17 anos, classe A, São Paulo

Mídia é como um ascensorista: tanto levanta como derruba uma pessoa, como o caso do Ronaldo, o fenômeno. Ele tava no auge da mídia e, depois, ficou lá embaixo e, depois, subiu de novo

Feminino, 26/30 anos, classe C, Rio de Janeiro

Sair de casa sem o celular é a mesma coisa que sair sem cueca, você até sobrevive, mas se sente muito mal, parece que tem alguma coisa te incomodando

Masculino, 18/21 anos, classe B, Rio de Janeiro

Se eu coloco um tema na internet, Britney Spears: aparecem 300 blogs que falam sobre ela. Aí você vai juntando as informações que cada um diz, e você faz sua opinião sobre o artista.

Feminino, 13 anos, classe B, Rio de Janeiro

Tenho Orkut e Facebook, uso todos os dias, mais o Orkut. Muito pra me comunicar com amigos, fofoquinhas, ver fotos dos outros, do meu ex-namorado, que agora está namorando com outra.

Feminino, 21 anos, classe B, Porto Alegre

Amigos virtuais eu não considero amigos mesmo, considero amigos da internet. Eu não gosto muito de conhecer pessoas de outra cidade que eu nunca vi na minha vida, eu não sei quais são as intenções.

Feminino,17 anos, classe A, Ribeirão Preto

Eu não gosto de adicionar quem eu não conheço. Tenho quase 100 amigos no meu Facebook e conheço todos

Feminino, 17 anos, classe A, São Paulo

O símbolo da TV é a união da família. Quando estamos assistindo, estamos sempre conversando. É a hora que estamos juntos

Masculino, 20/24 anos, classe C, São Paulo

A TV aberta se preocupa mais com a audiência e menos com conteúdo. A TV fechada não, ela tem um respeito maior e preocupação em mostrar conteúdo.

Masculino, 20/24 anos, classe C, São Paulo

O jornal é grande, difícil de mexer, suja, rasga fácil, difícil, desajeitado para ler porque é muito grande

Masculino, 17 anos, classe A, São Paulo

Ouvi uma música legal na rádio, gostei. Vou pegar o nome dela para quando chegar em casa jogar na internet e baixar

Masculino, 20/24 anos, classe C, São Paulo

Veja também: Por que compartilhar notícias?

Publicado por Tiago Dória, em 3 de dezembro de 2010 (sexta-feira).
Categoria: pesquisa. Tags: , , , , , , , ,

O email nosso de cada dia

Hoje em dia, as pessoas escrevem mais não porque tenham algo a dizer, mas pelo motivo de que ficou bem mais fácil publicar conteúdo. Somente essa provocação do jornalista e escritor John Freeman já vale a leitura de seu último livro “The Tyranny of email” – em português, A Tirania do email (256 páginas/Editora Scribner).

Freeman acredita que, quando era mais caro se comunicar, as pessoas pensavam duas vezes antes de enviar uma mensagem, preocupação que não existe mais hoje em dia. Nunca foi tão fácil se comunicar e publicar conteúdo. Segundo Freeman, isso é bom, mas engana-se quem acha que estamos melhor informados e melhor conectados como seres humanos. Como se, historicamente, quantidade e facilidade fossem sinal de qualidade.

Aliás, segundo o escritor, escrever ficou mais fácil, contudo ler ficou mais difícil devido não à enorme quantidade de informações disponíveis, mas sim às constantes interrupções a que estamos sujeitos no dia a dia – um email novo que chega, uma janela pulando no messenger, uma mensagem de voz deixada no celular.

Para Freeman, essas constantes interrupções tendem somente a crescer. Antes, mensagens em plataformas de redes sociais ficavam restritas ao desktop, hoje elas estão no celular, que vai com a gente para qualquer lugar.

Da mesma forma, bem no início, os emails eram restritos ao ambiente de trabalho, ficavam no computador do escritório, ao passo que hoje, com os smartphones, eles entraram dentro de casa. O email foi “domesticado”. Você checa emails quando acorda, no intervalo do programa da TV e até mesmo enquanto conversa com o seu o filho ou namorada (uma propaganda recente da Microsoft inclusive explora esse hábito).

Com isso, além de quebrar a barreira entre vida pessoal e profissional, a internet tem criado uma cultura de “disponibilidade 24 horas”. Uma ansiedade por comunicação. Você sempre tem que estar disponível. Demorou mais de 24 horas para responder a um email? Pode ter a certeza de que vai gerar um abalo no relacionamento com o remetente do email.

Neste ponto, Freeman é certeiro em sua crítica. Parece que, de uma hora para outra, as pessoas se esqueceram de que as outras têm mais coisas a fazer do ficar pendurado em emails e plataformas de redes sociais – família, filhos, namorada(o), dormir ou simplesmente não falar com ninguém. As pessoas não estão disponíveis 24h.

E mais, essa “cultura da disponibilidade 24h” tem gerado um excesso de informações e exigido uma postura sobrehumana da maioria dos profissionais, tipo de habilidade que, num passado não muito distante, era cobrada apenas de profissionais específicos, como professores, governantes e jornalistas.

O excesso de mensagens que recebemos todo dia não exige que sejamos multitarefa, mas sim “multisentimental”. Respondemos um email de maneira dura para um funcionário pouco dedicado; daqui a pouco, fazemos o mesmo, mas de forma calma para um cliente. Ou amorosa para uma namorada; de modo informal e engraçado, para um amigo.

Enfim, na hora de se comunicar passamos de um estado emocional a outro. Tudo isso em questão de segundos. Não é à toa que depois de “limpar” a nossa caixa de email, nos sentimos cansados, não fisicamente, mas emocionalmente.

Neste momento, o discurso de Freeman lembra muito o do Jaron Lanier, autor de “Você não é um aplicativo” – nós é que devemos moldar as tecnologias, e não o contrário.

Para mim, a sensação ao ler “The Tyranny of email” foi a mesma de “Free”, de Chris Anderson. Esperava encontrar um livro planfetário, com o autor tentando empurrar uma visão a qualquer custo, porém me enganei no final. Anderson, na realidade, faz um histórico do modelo gratuito, indicando pontos negativos e positivos.

Da mesma forma, Freeman faz um histórico da comunicação escrita, que tem sido pontencializada nos últimos anos com o uso do email e sistemas de mensagens em redes sociais. Aliás, a linguagem escrita e a falada estão se aproximando muito.

Portanto, o título do livro (Tirania do email) é mais provocativo do que descritivo. Na realidade, o escritor junta opinião, história e a sua própria experiência para refletir um pouco sobre como a comunicação escrita e em alta velocidade tem nos afetado.

Uma das primeiras observações é por qual motivo checamos toda hora o email ou o perfil em uma rede social? Simplesmente por causa de uma das necessidades mais antigas do homem – sensação de pertencimento.

Uma caixa de email ou um perfil numa plataforma de rede social com mensagens novas nos proporciona a sensação de que somos importantes para outras pessoas, estamos vivos. Reforça o senso de que somos o centro do mundo.

Por sua vez, a história do telegrama e do email nos ensina que, ao se desenvolver o caráter viral de um meio, ele se torna ferramenta de marketing, mas também de contraventores.

Em 1887, articulistas do NYTimes publicaram artigos preocupados com a propaganda política que poderia vir pelo correio. Por outro lado, a falta de comunicação face a face proporcionada pelo correio atraiu os interesses de criminosos.

Era comum receber telegramas e cartas anônimas xingando a sua esposa ou filhos. E os jornais eram repletos de casos de pessoas que recebiam falsas correspondências de banco e de empresas pedindo informações bancárias (qualquer semelhança com os atuais golpes de phishing não é mera coincidência).

Neste contexto, foram justamente os jornais os mais afetados com o surgimento do telegrama, das cartas e, mais recentemente, do email. Nos anos 30, a partir do momento em que o correio americano liberou o envio de propagandas, os jornais começaram a se sentir ameaçados, pois tinha-se medo de que as empresas passassem a utilizar mais o “correio marketing” do que os espaços publicitários nos jornais. Afinal de contas, o primeiro tinha o caráter de ser viral, era mais barato e prometia “atingir diretamente o consumidor”.

Com o incremento dos telegramas, as informações começaram a circular não apenas com mais velocidade, mas também em maior quantidade. Para se ter ideia, antes do telegrama, demorava 5 semanas para chegar uma notícia enviada por um correspondente de um jornal londrino em Nova York. Com mais conteúdo, muitos jornais passaram a ter edições diárias. Com a vinda da internet, passaram a funcionar 24 horas por dia/7 dias por semana.

No entanto, o efeito mais profundo viria depois com o surgimento do email, que mudou um pouco a nossa noção de relevância de informação. Segundo Freeman, a nossa caixa de email tem substituído o “jornal da manhã” como artifício de contexto.

O que é mais importante para você de manhã? Ou melhor, o que você faz primeiro? Abrir o seu email, Orkut, Twitter ou conferir o “jornal do dia”?

Se você checa primeiro o email, saiba que isso é a coisa mais natural. Toda manhã, é ele quem nos “indica a nossa posição no mundo” – atividades que temos que fazer, contas a pagar, lembrete do aniversário de algum amigo, o que de importante vai acontecer no dia.

Em outras palavras, a caixa de entrada de emails, Facebook, Orkut ou Twitter são os primeiros fluxos de informação com os quais temos contato no início do dia e não mais o “jornal da manhã”. Contudo,  isso não quer dizer que não tenhamos notícias nessas plataformas (até temos, mas é um tipo de informação que foi pré-filtrada pelo nosso círculo social que, geralmente, possui critérios de revelância diferentes do tradicionalmente adotado pelos jornais).

O lado negativo de “The Tyranny of email” está em ser pretensioso demais, o que atrapalha um pouco a análise do autor. Freeman chega a escrever uma carta aberta, um manifesto por uma comunicação mais lenta. No entanto, passa longe de criar algum tipo de movimento.

Devagar, de Carl Honoré, devidamente comentado neste blog, e que aborda o mesmo tema, é bem mais profundo e nos faz refletir bem mais sobre o nosso estilo de vida. É mais interessante ver “The Tryranny of email” como um livro sobre a história da comunicação escrita.

Outra questão é que as dicas de Freeman para lidar com excesso de emails caem no lugar comum. Ele é certeiro ao mostrar que, acima de tudo, essas soluções devem ser comportamentais e não tecnológicas.

Entre elas, utilizar o campo assunto de forma objetiva para fazer perguntas diretas, que precisem de respostas curtas, do tipo “Vamos almoçar amanhã às 12h30?”. Sempre deixar claro que não é preciso responder a uma mensagem, assim você evita receber coisas do tipo como “ok”, “obrigado”; e o mais importante: nunca checar o email antes de dormir, dependendo da mensagem que chegar, pode ser que você perca uma boa noite de sono.

No final das contas, apesar das críticas à comunicação escrita e em alta velocidade proporcionada pela internet, que se reflete no uso do email, Freeman está longe de ser um ludita. Ele entende que, além de exigir uma habilidade sobrehumana, todo esse fascínio pela velocidade leva-nos a perder um dos principais benefícios da internet, que é proporcionar uma experiência mais social e humana.

Temos a impressão que estamos ganhando, mas, na realidade, estamos perdendo muito do potencial da internet.

Veja também: Por uma internet em tempo giusto

Crédito das fotos: HowNowDesign, Joeruny, Grigaid e divulgação

Publicado por Tiago Dória, em 30 de setembro de 2010 (Quinta-feira).
Categoria: livros. Tags: , , , ,

De onde vêm as boas ideias? (Steven Johnson)

Steven Johnson é um dos principais pensadores da cultura digital e está com um livro em fase de lançamento - Where Good Ideas Come From: The Natural History of Innovation (prometo comentar em breve aqui, no blog).

Johnson promete falar sobre inovação e dissecar o surgimento das ideias que mudaram o mundo. Isso em várias áreas, inclusive tecnologia.

No Twitter, o autor publicou um vídeo bem bacana de divulgação do livro (book trailer).

Vale dar uma olhada. O book trailer foi feito pela Cognitive Media.

Veja também: Bê-á-bá da tecnologia

Publicado por Tiago Dória, em 23 de setembro de 2010 (Quinta-feira).
Categoria: livros, videos. Tags: , , , ,