Entrevista com José Murilo Jr, do Global Voices Online

Conheci o premiado blog coletivo Global Voices Online no começou de 2005. Confesso a vocês que, logo de cara, chamou a minha atenção.

O GVO é o que chamam de “bridge blog“, um site que faz a ponte entre pessoas de culturas diferentes. Ele registra e traduz para outras línguas as discussões mais significativas que estão acontecendo em diversas blogosferas do mundo. [o debate no Brasil sobre 10 anos dos blogs ficou em destaque]. É uma troca constante de informações e opiniões que você não vê na chamada “grande mídia”.

Para que vocês conheçam melhor o projeto, conversei com o brasileiro José Murilo Junior, do Ecologia Digital, e editor de língua portuguesa do GVO. No final, o bate-papo também foi sobre “jornalismo-cidadão” e o fim do DRM.

1) Quando e por que surgiu o Global Voices Online?

O Global Voices Online surgiu do improvável encontro entre Ethan Zuckerman, um über-geek missionário (fundador do Geekcorps), e Rebecca Mackinnon, uma jovem mas experiente jornalista originária dos quadros da ‘big’ mídia tradicional — ex-chefe dos escritórios da CNN na China e no Japão, com vasta experiência na cobertura das Coréias, Paquistão e Filipinas.

O local onde ocorreu este encontro é também significativo: o ‘Berkman Center for Internet and Society‘, de Harvard, berço de outros projetos importantes para a rede como o Creative Commons, OpenNetInitiative, Stopbadware, entre outros.

A convergência destas duas perspectivas — tecnologia voltada para aplicações sociais aliada a uma clara percepção dos limites colocados pelo modelo de cobertura da mídia tradicional, especialmente nas funções desenvolvidas pelos correspondentes internacionais — formatou o que veio a ser a missão original do GVO:

‘… busca realizar uma curadoria, amplificando e agregando a conversação global online, com ênfase em países e comunidades não atendidos pela mídia tradicional (ou seja, excluindo os EUA e Europa Ocidental).

Afirmamos o compromisso de desenvolver ferramentas, instituições e articulações que assegurem que todas as vozes globais possam ser ouvidas’.

O encontro de fato ocorreu em dezembro de 2004 durante uma conferência reunindo blogueiros de variadas procedências no ‘Berkman Center’, e desde então o GVO vem funcionando como um projeto de mídia sem fins lucrativos ‘incubado’ pela universidade de Harvard.

Hoje, a comunidade de editores e autores GVO está em pleno processo de realização de sua autonomia institucional, em vias de se estabelecer como uma organização global sem fins lucrativos com sede em Amsterdam, Holanda. O manifesto do Global Voices em português pode ser acessado aqui.


Rebecca, Ethan e José Murilo em Delhi, Índia, no último encontro internacional do GVO

2) Vocês trabalham com um grupo de editores em vários países. Você é o editor no Brasil. Como vocês se organizam na produção dos posts? Você é pautado?

Minha atribuição no GVO é editor de lingua portuguesa — não existem editores por país. Quanto ao funcionamento geral do GVO, considero que o trabalho de retaguarda é a chave do sucesso do projeto.

O intercâmbio constante entre editores e autores, através de listas (globais e regionais), wikis, blog coletivo interno e irc, proporciona uma sintonia virtual surpreendente em se tratando de pessoas com origens tão absolutamente diversas.

Neste ambiente basicamente composto por blogueiros, os editores (regionais e linguísticos) organizam a colaboração dos autores com base nas manifestações das respectivas blogosferas. Portanto, em última instância quem pauta o GVO são os blogs locais, cabendo aos GVOers coletar, contextualizar, e traduzir.

Circunstâncias especiais podem originar pautas inter-regionais: neste momento, por exemplo, está sendo montada uma resenha sobre a reação global dos blogs ao código de conduta para blogueiros do Tim O’Reilly, e aí todos colaboram.


“uso do inglês ainda é determinante na multiplicação de ativismos na rede”

3) Você foi convidado a participar do Global Voices Online? Outros blogueiros podem participar do projeto? Quais são os critérios?

Fui convidado a participar em virtude de um comentário que fiz no blog do Lessig — simples assim. Ou seja, o GVO é formado por blogueiros que estão sempre a procura de novos colegas antenados e motivados, e que enxerguem no projeto uma oportunidade para alargar seus horizontes.

Neste caso, estou falando não só da oportunidade de relacionamento com culturas e contextos ultra-diversificados, mas também da experiência na formação e gerenciamento de uma efetiva comunidade online de âmbito global.

Um critério fundamental é que os interessados tenham fluência de escrita em duas línguas — uma delas o inglês. De minha parte, como editor de língua portuguesa, estou em busca de colaboradores que possam traduzir para o inglês, reportagens com a cobertura dos temas abordados nas blogosferas dos países lusófonos.

Uma boa oportunidade para os blogueiros de língua portuguesa interessados em iniciar sua colaboração com o Global Voices está no recente lançamento do Projeto GVO-Lingua, que traduz para o português (e outros idiomas ) reportagens de outras blogosferas postadas no site GVO em inglês.

A proposta é bem original e tem gerado uma dinâmica inovadora — nesta mesma onda algumas coberturas da blogosfera brazuca foram traduzidas para o chinês (!).

Para quem quer começar, é bem mais fácil traduzir do inglês para o português, não é? Espero que possamos encontrar interessados entre os leitores de seu blog, e aqui deixo o contato (portuguese at globalvoicesonline.org).


Diversas culturas sempre estão em destaque no GVO

4) Percebo uma preocupação do Global Voices Online em mostrar ações de movimentos sociais e outros grupos que, normalmente, estão à margem da cobertura da grande mídia.

Você acredita que uma das funções ou características dos blogs é fazer um contraponto à grande mídia, ou blogs, ao escolherem novos nichos e enfoques a um assunto, acabam por si só fazendo esse contraponto naturalmente?

Em minha opinião a principal característica do fenômeno blog é proporcionar visibilidade à manifestação individual, pessoal, desprovida das camadas institucionais que permeiam, direcionam e formatam (aprisionam? capturam?) a cobertura da grande mídia.

Portanto considero a especificidade da manifestação dos blogs decorrência natural de um conceito que incorpora de forma radical os princípios da read/write web, no âmbito de um processo de descentralização e desintermediação que a rede irá gradativamente operar em todos os setores.

Já estamos vendo o desenrolar do processo nos segmentos da música e da mídia, e este ano parece que o audiovisual é a bola da vez.

Sendo formada por blogueiros internacionais em conversa constante, a comunidade GVO me parece bem posicionada para perceber, captar e amplificar estes elementos transformadores que podem ser observados de forma sistemática nas diversas blogosferas, e que dificilmente seriam reportados pelos veículos da mídia tradicional.

Neste sentido, no atual momento da história, os blogs são um contraponto à mídia tradicional. Mas acredito que esta revolução está apenas começando…


Xô, Sarney!

5) E quais são os movimentos sociais mundiais e minorias que, em sua opinião, sabem melhor usar a internet como ferramenta de organização e de divulgação das suas ações?

Não querendo puxar a brasa para a nossa sardinha, mas já fazendo isso, declaro: são os blogueiros em geral. Entretanto, devo ressaltar que o uso do inglês ainda é determinante na multiplicação e qualificação do alcance de campanhas e ativismos na rede.

Como ilustração, nas últimas eleições aqui no Brasil tivemos o caso da censura da campanha do Senador José Sarney ao blog da Alcinéia Cavalcante, sobre o qual postei artigo no GVO, e algumas horas depois recebia solicitação de informações sobre o ocorrido diretamente do ‘Repórteres Sem Fronteiras‘.

Resultado: ao fim deste mesmo dia a informação sobre o caso estava circulando na rede global também em francês e espanhol, tornando impossível o exercício da surdez seletiva pela grande mídia local.

Recentemente tivemos uma discussão interna na comunidade GVO que resultou em um interessante post do colega tunisiano Sami Ben Gharbia sobre as razões para o sucesso ou fracasso de campanhas de ativismo online, tomando como base o caso do blogueiro egípcio Kareem Sulaiman.

Alguns elementos nos levam a considerar que a ousadia na apresentação e ilustração dos fatos para o grande público constitui fator estratégico, e que tal atitude varia em relação ao grau da repressão (medo) existente no país em questão.

6) No ano passado, vocês fecharam uma parceria com a Reuters. Talvez seja um dos primeiros blogs a fechar um acordo de conteúdo com uma agência de notícias. Como funciona essa parceria? Vocês fornecem conteúdo a Reuters? E por que você acredita que a Reuters se interessou pelo conteúdo de vocês?

Esta parceria é realmente interessante e inusitada, e pode abrir caminhos interessantes para a nova ecologia da mídia na rede.

Entretanto, minha opinião é que a Reuters ainda não tem clareza sobre como efetivamente explorar o potencial da comunidade GVO. Um exemplo de utilização são as páginas de países do site Reuters-Africa (ex: Etiópia ) que apresenta links para os últimos posts GVO da blogosfera local.

Parece uma forma da agência demonstrar que está ‘prestando atenção’ aos blogs, e isto sem dúvida representa um avanço significativo, mas o passo decisivo e transformador seria uma real interação dos correspondentes internacionais com os blogueiros locais, e isto ainda não aconteceu.


Redação do OhMyNews

7) O Global Voices Online é considerado um projeto de jornalismo cidadão. Recentemente, diversos projetos pioneiros do jornalismo cidadão mostraram problemas, como o OhMyNews, que está com dificuldades financeiras e queda de leitores.

Você acredita que esteja faltando alguma coisa na “receita” desses projetos? Talvez uma visão mais “pé no chão” [visão administrativa e menos experimentalismo ou "romantismo"]?

Tenho algumas dificuldades com este conceito de ‘jornalismo cidadão’. Se isto significa cidadãos comuns fazendo jornalismo, creio que o termo não é adequado para descrever o que o GVO realiza.

Mas entendo que o termo tem sido usado para etiquetar todas as iniciativas que de alguma forma propõem dar visibilidade a narrativas originadas fora do âmbito do jornalismo profissional — uma apreciação bem jornalística, eu diria.

Uma característica fundamental que vejo no sucesso do Global Voices Online é a força de sua comunidade de colaboradores, e a forma como as decisões fundamentais sobre o projeto são sempre debatidas de forma horizontal e participativa.

Neste momento em que o GVO se prepara para deixar seu berço dourado na universidade de Harvard e ganhar autonomia institucional, todas as questões relativas à configuração da nova empresa são compartilhadas com o grupo e debatidas coletivamente.

Minha tendência é comparar o modelo com as comunidades de desenvolvimento Open Source, onde os princípios da articulação participativa em rede estão presentes no próprio DNA do projeto.

Não tenho maiores informações sobre o que está havendo com o OhMyNews, mas à distância me parece que o modelo era inovador em arregimentar colaboradores não-profissionais para a produção de conteúdo, mas ainda conservador no seu modelo de negócio e de gestão.

Respondendo diretamente à sua pergunta eu diria que a visão mais ‘pé no chão’ neste caso é a do GVO, que enxerga real valor nos editores e autores que compõem sua comunidade de colaboradores.

Entretanto, não posso deixar de reconhecer que tal visão é também bastante experimental, e ‘romântica’.

8 ) Aproveitando a entrevista, como você vê as iniciativas da EMI e da própria Microsoft de vender músicas sem o DRM? Você acredita que o DRM vai acabar em breve?

Em 2004 eu já fazia referência sobre o assunto no meu velho blog (‘Ecologia Digital‘ ).

Nesta ocasião, o Cory Doctorow fez uma palestra na Microsoft (!) apresentando uma argumentação brilhante contra a opção das empresas pelo DRM (veja a ótima tradução integral do Silvio Meira ), demonstrando que:

(1) Sistemas DRM não funcionam, (2) Sistemas DRM fazem mal a sociedade, (3) Sistemas DRM são ruins para os negócios, (4) Sistemas DRM são ruins para os artistas, e (5) DRM é uma péssima decisão de negócios para a Microsoft.

Na minha opinião, já naquela época todos os players sabiam que não ia dar para seguir por este caminho, mas ainda havia um ‘gap’ de tempo onde seria possível lucrar com o modelo enquanto não caísse a ficha para os usuários.

O curioso é que quem lucrou no período foi o Steve Jobs, e não à toa, foi quem teve a sensibilidade de perceber o momento limite para virar o jogo. Respondendo: o DRM acabou.

Fotos dos Flcikrs de JoseMurilo e Fikra

Publicado por Tiago Dória, em 17 de abril de 2007 (Terça-feira).
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Entrevista para o Boletim Inova

entrevista publicada em março de 2007

ENTREVISTA
Doses diárias de cultura, web, tecnologia e mídia

Cansado de lotar a caixa postal dos amigos com links interessantes que encontrava na Web, Tiago Dória, jornalista, webdesigner, e graduando em Gestão em Negócios em Informática, resolveu criar um blog para compartilhar informações sobre sua paixão: cultura, web, tecnologia e mídia. A idéia deu certo. Atualmente seu blog, patrocinado pelo IG, é um sucesso no segmento. Em entrevista ao Inova, Dória fala sobre sua rotina de trabalho, tecnologia e informação e dá dicas de como ganhar credibilidade na blogosfera.

Sara Schuabb

Quando e como surgiu a idéia de criar um blog?
Surgiu em 2003.Eu mandava muitos e-mails para meus amigos sobre as novidades que encontrava na Web. O blog surgiu, portanto, como um “diário de navegação” mesmo, com a idéia de compartilhar e registrar as coisas mais interessantes que encontrava pela Web. De certa forma, ele continua nessa dinâmica até hoje.

Por que escolheu falar sobre cultura web, tecnologia e mídia?
Escolhi falar sobre esses assuntos porque são o que tenho mais afinidade. Estou completando uma graduação na área de Gestão de Negócios em informática pela Fatec (Faculdade de Tecnologia de Estado de São Paulo), então, para mim, são assuntos do dia-a-dia. Aliás, para ser ter uma idéia do quanto me interesso por esses temas, era para ter feito a Fatec antes da faculdade de jornalismo.

Como esse assunto está sendo tratado no Brasil e na imprensa em geral?
O Brasil é um dos poucos países onde o jornalista pode escrever sobre tecnologia sem ter uma formação na área de exatas. Aí, surgem aqueles chavões e erros. Listo alguns: aposta-se em uma cobertura maniqueísta “Microsoft x google” e confunde-se termos, como “hacker” com “cracker”. O primeiro não está ligado a roubo de senhas, mas a conhecimento grande na área de computadores. O segundo sim está ligado a cybercrimes. Temos também um erro bem comum: associar software de código aberto à gratuidade. Necessariamente uma coisa não tem nada a ver com a outra. Existem softwares de código fechado gratuitos e vice-versa.

Como você se organiza para manter o blog; criou algum método de trabalho? Como se pauta?
Existe um método que sigo às vezes: procuro atualizar o blog na parte da manhã e a partir da meia-noite, quando muitos outros blogs e sites de jornais são atualizados com novos assuntos. Dificilmente me pauto, os assuntos surgem a medida que eu vou navegando na rede. Mas procuro me agendar em relação à cobertura de certos eventos.

Quem é seu público-alvo? Você utiliza alguma tática para atraí-lo? Qual é a média de acesso mensal?
Em sua maioria são blogueiros e pessoas que trabalham na área de informática e mídia. Um público jovem. Entre 20 e 35 anos. A tática é atualizar sempre e ter um conteúdo interessante e enfoques diferentes de outros sites. Por meio dos comentários e e-mails, percebo se um assunto está agradando ou não. Os comentários, e-mails e a repercussão em outros blogs são, de certa forma, uma bússola do meu blog. Ele tem em média 105 mil acessos por mês.

O blog pode ser usado para se falar de qualquer tema. Mas o que é preciso para ganhar visibilidade e se tornar uma referência de credibilidade na blogosfera?
Para ganhar credibilidade na Web, você deve seguir o mesmo caminho para ganhar confiança dos amigos. Ser transparente em suas ações e atento aos seus amigos: basta trocar a palavra “amigos” por “leitores”. É mais ou menos essa a relação no blog – uma conversa entre amigos. Ser generoso nas referências a outros sites, atualizar sempre e não usar uma linguagem muito formal também contam muito.

Muitos jornalistas vêem no blog uma saída para desabafar e assumir posições que jamais seriam aceitas por veículos grandes, seja por razões políticas ou empresariais. Você acredita que os blogs têm atraído leitores pelo fato de ser uma ferramenta de comunicação mais democrática, livre de censura e sem fins mercadológicos?
Acredito que sim, mas acho que também pesa a questão dos blogs deixarem o leitor mais próximo de quem está produzindo a informação. A questão da empatia e da linguagem informal e direta também conta muito. Você escreve uma opinião e o leitor vai lá, lê e se identifica. “Nossa! Eu também penso assim!”.

Parece que a revista é o veículo que está mais sendo afetado pelo surgimento da blogosfera. Qual é sua opinião sobre essa migração de público? Por que a revista?
As revistas estão sendo mais afetadas porque o seu principal produto sempre foi vender opinião e novos enfoques sobre assuntos já debatidos. Sem isso a revista não existe. De certa forma, as melhores opiniões e enfoques estão migrando para os blogs. Por que isso? Para você opinar e dar um enfoque diferente a um assunto é preciso ter liberdade para escrever; e os blogs de certa forma proporcionam isso.

Qual é o seu conselho para os jornalistas que sonham em criar um blog respeitado?
Jornalistas devem ter noção de que o seu nome ou o veículo em que trabalham podem não contar muito na blogosfera. Ele não vai começar totalmente do zero, mas em alguns aspectos talvez. Outra preocupação que deve ter é não tratar seu colega (outro blogueiro) como concorrente, mas sim como uma pessoa que pode enriquecer o seu trabalho. A blogosfera, antes de tudo, é uma comunidade.

Confira o blog:

http://z001.ig.com.br/ig/59/32/896736/blig/tiagodoria/

O INOVA é um boletim eletrônico quinzenal sobre tendências de mercado e novos rumos da comunicação na era de convergência tecnológica. Produzido por alunos do 8º semestre de jornalismo do IESB.

Publicado por Tiago Dória, em 31 de março de 2007 (sábado).
Categoria: entrevistas

Entrevista com Alexandre Inagaki, da InterNey Blogs

A blogosfera brasileira está mais madura. Estreou hoje a InterNey Blogs, uma nova rede brasileira de blogs, que já nasce com um sistema de remuneração. Reúne 21 blogueiros de diferentes regiões do País com a proposta de permitir aos seus integrantes ganharem dinheiro com o que mais gostam de fazer – blogar.

Para isso, a rede trabalhará com um sistema de anúncios que analisa o texto de cada página, de cada blog, e identifica palavras com potencial comercial e, com base nessas palavras-chaves, gera anúncios automaticamente.

O empreendimento é uma iniciativa do analista de sistemas Edney Souza, do blog InterNey, e de Alexandre Inagaki, do premiado Pensar Enlouquece.

Adorei ver blogs, como o Filmes do Chico, um dos meus preferidos sobre cinema, participando do projeto. Espero que, com essa empreitada, consigam fazer um trabalho cada vez mais significativo.

Para complementar as informações, ontem mesmo, bati um papo por email com Alexandre Inagaki. No final, a entrevista foi também sobre jornalismo e blogs em geral ;-)


Edney e Inagaki: blogueiros e empreendedores

1) Como você percebeu a necessidade da criação de um portal de blogs no Brasil?

Blogs, em geral, são exércitos de um homem só. E eu, desde a época em que editava um fanzine virtual, o Spam Zine, já havia constatado que é muito mais bacana escrever fazendo parte de alguma intrépida trupe que seja composta por amigos e gente que eu admiro.

Mas o fato é que a reunião de diversos blogs em um condomínio virtual é um ovo de Colombo, uma maneira de congregar escribas de talento, fazer com que cada blog agregue novos leitores e ao mesmo criar um portal diferenciado de notícias, que será diariamente abastecido por textos inéditos e de qualidade.

2) E como ficará o Gardenal [rede de blogs]? Você saiu de lá?

O Pensar Enlouquece está saindo do Gardenal porque todos os blogs do portal serão abrigados dentro do domínio http://www.interney.net, uma URL fortíssima porque possui PageRank 7 (no Brasil, só portais como UOL e Terra têm esse mesmo ranqueamento), façanha conseguida por um expert em SEO, o Edney Souza.

Além disso, no InterNey Blogs estou tendo a oportunidade de convidar vários blogueiros e jornalistas que admirava há tempos para me fazerem companhia nesta empreitada.

Quanto ao Gardenal, ele continuará sendo um dos melhores coletivos de blogs brasileiros, com gente fina, elegante e sincera como o Pablo Miyazawa, o Alexandre Matias, a Lia Amâncio e o Ubiratan Leal. Mas um dia, quem sabe, espero poder fazer uma joint-venture com eles. :)

3) A remuneração será via publicidade. Como vai funcionar esse sistema de publicidade? Será junto ao Adsense, ao Mercado Livre, BuscaPé etc? Existe a possiblidade de publicidade direta – um anunciante comprar um espaço, um banner, por exemplo?

Vamos trabalhar basicamente com Mercado Livre e Adsense, aproveitando toda a expertise que o Edney Souza desenvolveu a ponto de ter largado seu cargo de Gerente de Sistemas a fim de se dedicar ao seu site em tempo integral, até porque ganhava muito mais com as receitas publicitárias oriundas do Interney.net do que com o emprego convencional que ainda tinha.

A pretensão do InterNey Blogs é aproveitar toda a estrutura criada pelo Edney e conciliá-la com a produção de conteúdo de qualidade, sendo que 80% das receitas arrecadadas pelo portal serão distribuídas entre os blogueiros participantes do nosso portal. Quanto à venda de banners, certamente estaremos abertos a possibilidades.

O mercado publicitário paulatinamente está descobrindo que blogs possuem audiência fiel, qualificada e voltada a nichos específicos, e espero que a criação deste portal represente mais um motivo para que anunciantes percebam que blogs podem dar um retorno muito mais expressivo do que sites tradicionais, a um CPM expressivamente menor.


Blogueiros do InterNey Blogs

4) Qual foi o critério de escolha dos blogs que participam do portal [ou rede de blogs]? Outros blogueiros poderão participar?

Nesta primeira fase, convidei basicamente pessoas que eu admiro. Chamei, por exemplo, o Chico Fireman, que é para mim o melhor crítico cinematográfico da blogosfera. O Nelson Moraes, tremendo escritor cujo superego anabolizado o impede de publicar um livro, apesar de já ter editoras à sua disposição.

O pessoal do Uma Dama Não Comenta, um dos melhores blogs de humor brasileiros. O Pedro Ivo Resende, autor de contos nonsense geniais. E assim por diante. Estamos iniciando atividades com 21 blogs, mas pretendemos dar espaço a muitos outros.

Porém, para a segunda fase do empreendimento, eu e o Edney queremos, além de prosseguir oferecendo hospedagem a blogs que merecem ser melhor reconhecidos, começar a explorar alguns nichos mercadológicos: blogs sobre carros, games, gadgets. Qualquer um que tenha bom texto e que seja especialista em um destes assuntos pode inclusive entrar em contato comigo – aceitamos sugestões. :)

5) Além da remuneração, percebo uma preocupação de vocês em dar espaço a blogueiros com talento, mas, às vezes, um pouco desconhecidos do grande público. Recentemente, Pepe Cervera, blogueiro do 20 minutos, disse que, atualmente, a maior dificuldade dos criadores de conteúdo é obter leitores, ouvintes, conseguir que alguém os encontre. Você concorda com essa afirmação?

Afirmação corretíssima. No dilúvio de informações da Web, ter um blog é quase como jogar uma garrafa no mar em busca de alguém que a encontre. Com o agravante de que, citando a tira publicada pelo Adão Iturrusgarai na Folha de S.Paulo ontem, é bem provável que a garrafa que você porventura achar terá uma mensagem com a frase “enlarge your penis” ou coisa do tipo.


Mais que uma mensagem em uma garrafa ;-)

6) Qual o sistema de publicação de blogs utlizado no InterNey Blogs? E por que o escolheram?

B2evolution. Para justificar a escolha, passo a bola ao nosso expert em assuntos técnicos, Mr. Edney: “Porque ele permite múltiplos blogs numa instalação, enquanto o WordPress necessita de plugins para tanto. Além disso, raramente esses plugins são testados em ambientes de alto tráfego como será o caso do InterNey Blogs. Se o WordPress possuísse múltiplos blogs em sua forma nativa provavelmente acabaria utilizando-o, mas não é o caso”.


Salam Pax: quando o jornalismo e os blogs andam juntos

7) Você falou de uma diferença entre o “jornalismo de blogs” e o “jornalismo de web”. Você acredita que os blogs são “jornalismo”? E mais – o que difere um “blogueiro profissional” de um “blogueiro amador”?

Creio que blogs podem, sim, praticar jornalismo de alta qualidade. Mas preciso fazer aqui uma breve digressão sobre o assunto, lembrando a afirmação da Rebecca Blood [ver post abaixo] de que jornalismo envolve coleta de dados, entrevistas, pesquisas e apurações. Sem os recursos técnicos e financeiros oferecidos pela mídia tradicional, um internauta dificilmente possuirá estrutura para fazer a apuração dos fatos, imprescindível para o bom jornalismo.

Aqui no Brasil, ainda são raros os casos de blogueiros que produzem conteúdo inédito jornalístico, com entrevistas e matérias elaboradas pelos mesmos. Na maior parte das vezes, a blogosfera brasileira funciona como um ombudsman da imprensa, reverberando, filtrando e comentando o que foi produzido por jornais, revistas e portais.

Por outro lado, a blogosfera é um ambiente desvinculado dos interesses ideológicos de uma empresa jornalística, dando a um jornalista a possibilidade de elaborar suas próprias pautas e escrever sem preocupações com leads, pirâmides invertidas ou deadlines.

Enquanto há toda uma plêiade de blogs que se limitam a copiar e colar textos que encontraram em qualquer lugar, sem se preocupar com a veracidade das informações ou um mínimo de checagem de dados, é possível também encontrar excelentes blogs especializados nos mais diversos assuntos (divulgação científica (http://rodadeciencia.blogspot.com), cinema (http://www.ligadosblogues.blogspot.com), fotografia, quadrinhos). Trata-se, pois, de um admirável mundo novo no qual você já não precisa mais depender de um jornal, um canal de TV ou uma rádio para encontrar as informações que deseja saber.

Pode, graças à blogosfera, ler relatos de israelitas e libaneses sobre a guerra. Encontrou, por intermédio do blog de Salam Pax, mais informações sobre o cotidiano no Iraque durante a ocupação norte-americana do que em qualquer site ou jornal. Leu relatos sobre o que aconteceu em São Paulo no dia dos ataques do PCC, ou como estava New York em 11 de setembro de 2001.

Na folha em branco quase infinita que é a blogosfera, quem tiver um mínimo de paciência e capacidade de discernimento descobrirá rapidamente que em blogs é possível encontrar de tudo, inclusive bons jornalistas, escritores, fotógrafos e ilustradores amadores que, por um motivo e outro, estão produzindo conteúdo de excelente qualidade desvinculados dos veículos tradicionais de comunicação.

Sobre a questão da profissionalização, a criação do InterNey Blogs é uma tentativa de começar a remunerar blogueiros no Brasil por sua produção. A julgar pela experiência anterior do Edney com seu site pessoal, temos bons motivos para crermos que esse modelo será economicamente viável.

Se formos bem sucedidos criaremos um ótimo precedente, possibilitando a blogueiros recursos que, naturalmente, resultarão em melhoras na qualidade e quantidade dos posts publicados.


Pode ser blogueira, mas sem falar sobre política!

8 ) Aproveitando a pergunta acima. De uns dois anos para cá, alguns colunistas de jornais estão virando blogueiros e vice-versa. O que você acredita que difere o trabalho de um blogueiro de um colunista de jornal?

Recentemente todos os portais e sites de jornais recorreram ao uso de blogs, essa ferramenta tão hypada ultimamente. Mas não é difícil constatar que os “blogs” hospedados em portais não conversam efetivamente com outros blogs, uma vez que só linkam ou “trackbackam” notícias publicadas no próprio portal que lhes oferece hosting.

Não interagem efetivamente com a blogosfera, assemelhando-se mais a colunas tradicionais meramente travestidas de blogs, até porque não possuem a liberdade que a ferramenta blog deveria lhes oferecer. Além disso, são tolhidos no tema dos posts (vide o caso da Soninha Francine, que foi proibida de escrever sobre política em seu blog na Folha Online). É importante ressaltar que no InterNey Blogs, os autores terão total liberdade de criação – têm seus templates próprios e escrevem sobre qualquer tema que lhes vier à mente.

Ainda tergiversando sobre as diferenças entre blogueiros e colunistas de jornais, eis uma diferença fundamental: nos blogs, a repercussão de um texto surge pouquíssimo tempo após sua publicação, e vêm na forma de comentários e e-mails recebidos.

Blogueiros interagem com seus leitores, escrevem posts a partir dos feedbacks recebidos, deixam comentários nos blogs daqueles que visitaram sua página. O tempo de resposta de um colunista de jornal obviamente é muito mais pausado e limitado pelas restrições impostas pelo veículo em que escreve.


Filmes do Chico, um dos melhores do País

9) Como você acredita que serão os blogs daqui a 5 anos?

Com a crescente pluralização da produção de conteúdo, a união de blogs em torno de coletivos como Gardenal, Insanus, Verbeat e InterNey Blogs será uma tendência crescente. RSS, ou o que quer que seja que surja em seu lugar como agregador de conteúdo, será uma ferramenta ainda mais imprescindível. Blogs especializados em nichos cada vez mais específicos surgirão aos montes.

A blogosfera já estará definitivamente consolidada como mídia, e muitos dos blogueiros revelados na Web serão absorvidos por jornais, revistas e portais tradicionais.

Penso, no entanto, que a paulatina popularização da banda larga e os avanços nas técnicas de exibição de vídeos em streaming farão com que os videoblogs tornem-se o novo hype na Web, e isso em um prazo muito menor do que 5 anos. Contudo, assim como a TV não acabou com os jornais, creio convictamente que blogs e videoblogs conviverão sem maiores problemas.

Publicado por Tiago Dória, em .
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Entrevista com Daniela Bertocchi, do Intermezzo


Bertocchi na defesa de sua tese de mestrado em fevereiro

Considerada uma das tecnologias de comunicação mais significativas depois da invenção da imprensa, os blogs completam, oficialmente, 10 anos em abril. Desde o começo do ano, diversos artigos estão sendo publicados sobre o assunto. Entre eles, o do professor José Luis Orihuela, que saiu no ElPais.

Para comentar sobre esse e outros assuntos relacionados à blogosfera, entrevistei Daniela Bertocchi, jornalista e mestre em Ciberjornalismo pela Universidade do Minho (UM), em Braga [Portugal], onde também ministra aulas. Daniela mantém e participa de diversos blogs e projetos online, aqui, no Brasil, e em Portugal. Um dos mais interessantes e conhecidos é o blog coletivo Intermezzo, um dos pioneiros sobre mídia no Brasil.

1) Qual a avaliação que você faz sobre esses 10 anos de blogosfera?

Em dez anos muita coisa mudou. No começo, ninguém sabia o que era blog. Engraçado observar as matérias sobre o assunto publicadas àquela época nos meios de comunicação social. Todas começavam explicando o que era um blog, que a palavra surgia a partir de “web” + “log” e por aí afora.

Hoje, a estória é outra. O conceito disseminou-se. A cada segundo um blog é criado e isso não é uma frase de impacto, são as estatísticas recentes, de 2006. Os blogs deixam, cada vez mais, de estar à margem das mais importantes discussões políticas, econômicas, culturais etc. e, por muitas vezes, chegam a ser o seu centro.

Mas gostaria de voltar ao que disse: o conceito de blog. Porque, no fundo, é isso mesmo. O blog pode ser usado para qualquer coisa: receitas culinárias, diário pessoal, publicação de notícias. Serve à comunicação, à relação interpessoal, à criação de comunidades.

Pessoas, empresas e instituições se apropriaram desta idéia para se expressarem publicamente na rede, consoante os seus interesses. Isso é algo a ser considerado. Houve sim um alargamento do espaço informativo e opinativo com os blogs nestes dez anos. O mesmo está ocorrendo com os podcasts.


Dave Winer, um dos pioneiros nos blogs

É como o caso do RSS também. Dave Winer, um dos mais antigos blogueiros norte-americanos (senão o mais), colunista do DaveNet desde 1994, simplificou a versão RSS 0.9 que havia sido desenvolvida pela Netscape em 1999 e a popularizou entre os blogueiros. A idéia poderia ter morrido a meio do caminho, nunca ter vingado.

Mas em 2004 a versão 2.0 do RSS, finalizada pela empresa de Winer, foi adotada pelo The New York Times. A coisa, enfim, foi ganhando fôlego, pouco a pouco.

O que quero dizer, no fundo, é que, nesta análise de 2007 como o marco histórico dos blogs, mas interessante que colocar o foco na tecnologia em si (em suas facilidades de publicação) seria perceber que os blogs tornaram-se um “fenômeno” porque muitas e diferentes pessoas espalhadas pelo planeta compraram a idéia.

Os blogs participaram da estória do 11 de Setembro, 11 de Março, ataques de Londres, Guerra do Iraque, Tsunami; de eleições, cimeiras etc. Criam uma rede de narrativas e opiniões individuais e coletivas. E isso aconteceu (somente) em dez anos.


O Engadget virou loja?

2) Você acredita que, nesse meio tempo, muitos blogs – Engadget, BoingBoing, Gizmodo etc. – estão se tornando marcas ["grifes jornalísticas"] como as de uma revista ou jornal consagrados?

Sim. Ninguém está nesta vida a passeio. Estão a construir suas “marcas” a partir das mesmas estratégias de revistas e jornais consagrados: credibilidade, autoridade, respeitabilidade, rapidez, produtividade (capacidade de fornecer informaçõs em quantidade e qualidade). E estão a conseguir.


Blog coletivo Intermezzo

3) Aqui, no Brasil, existe o costume de falar “blogosfera brasileira” ou ainda “serviço voltado para blogueiros brasileiros”. Você não acha esse tratamento um pouco errado? O correto não seria “blogosfera em português”, pois o que separa os blogs não são as diferenças geográficas, mas sim as de idiomas?

Muito boa essa pergunta, Tiago. Curioso que acho que não conseguiria responder a essa questão com propriedade não fosse eu estar em Portugal há quase 3 anos e conviver não apenas com portugueses, mas com cabo-verdianos, angolanos etc.

Tenho duas coisas a dizer. A primeira: o erro, na verdade, não é esse; o equívoco é achar que o que separa os blogs é a fronteira do idioma. A segunda: além disso, os motivos comerciais – imperativos no mundo de hoje – justificam o uso da expressão “blogosfera brasileira”. Explico a seguir cada uma das minhas suspeitas.

Em primeiro lugar, o que separa os blogs é a fronteira cultural. E o idioma está incluído na cultura, junto com uma data de outros componentes bem complexos (como “identidade”, por exemplo). Ocorre que somos, hoje, 210 milhões de falantes da Língua Portuguesa em 8 países do mundo.

Trata-se do que poderíamos chamar de um “espaço multicontinental” de mesma língua. Todos os que falam o português são lusófonos, obviamente. Assim, todos os blogs em português – criados e mantidos ou no Timor, ou em Cabo Verde ou em Angola ou noutros sítios – poderiam, por defeito, integrar-se numa blogosfera em português.

E por que não a formam? Por que não conseguimos levar essa expressão adiante? Porque não partilhamos a mesma cultura, a mesma realidade, a mesma identidade, o mesmo modo de expressão, os mesmos problemas cotidianos.


Bertocchi: “o que separa os blogs é a fronteira cultural”

Não existe uma coesão entre este “nós” lusófono. Logo, não existe uma coesão entre estes blogs. (Quando falo em coesão, falo em força de atração, naquilo que os une).

A blogosfera de Portugal, por exemplo, possui características muito diferentes da brasileira; os blogs aqui tendem a ser super opinativos, analíticos e teóricos (poucos são informativos) em comparação com os do Brasil.

Falar em “blogosfera em português” só seria possível se desconsiderássemos completamente essas grandes diferenças culturais e optássemos por considerar apenas a questão linguística da coisa. Ou seja, falam a mesma língua e pertencem à mesma blogosfera. E nada mais. O problema é que o fato de falar um mesmo idioma não cria um sentimento de comunidade. E os blogs, como sabemos, alimentam-se deste sentimento.

Em segundo lugar, faz todo o sentido falar em “blogosfera brasileira” ou “serviço voltado para blogueiros brasileiros” quando pensamos que o Brasil é um mercado gigante e promissor. Daqueles 210 milhões luso-falantes que citei, nós, os brasileiros, somos 170 milhões. Além disso, estamos muito à frente em questões de acesso a Internet em comparação com Angola, Timor ou Moçambique, por exemplo.

Resumindo, acho perfeitamente compreensível o uso da expressão; embora, naturalmente, eu tivesse muito mais gosto em poder usar a expressão “blogosfera lusófona”.


Elpais e os seus blogs

4) De uns dois anos para cá, tem acontecido algo que sempre foi comentado no Intermezzo – colunistas de grandes jornais passaram a atualizar blogs. A chamada “grande mídia” está absorvendo os blogs. Como você vê tudo isso? Esses “blogs de jornalistas” são realmente espaços de conversações? E mais – o que difere o trabalho de um colunista de jornal do de um blogueiro?

Os media mastigaram e engoliram a idéia dos blogs depois que esta idéia já tinha vingado fora do círculo dos media e já parecia apresentar apelo comercial o suficiente para ser viabilizada por eles.

Os primeiros blogs são de 1997, como toda a gente sabe. Em 2002, um blog era criado a cada 5,8 segundos. Isso nunca mais parou. Mas os jornais começaram a criar blogs muitos anos depois disso tudo, já a partir de 2003 e 2004. Mas muitos só em 2005.

Fiz um levantamento dos blogs do Brasil, Portugal e Espanha em Setembro de 2006 para o meu mestrado. Alguns dados, para termos uma noção do que falo. O espanhol El Mundo, por exemplo, entre 2004 e 2006 lançou 34 blogs. Houve (e ainda há) por lá de tudo e para todos os gostos: blog de jornalistas, outros temáticos e ainda alguns criados a propósito de eventos pontuais (“Un español en el Katrina”; por exemplo). A atualização de muitos não é constante.


Un español en el Katrina

O El Pais começou em 2005 e, até a data que apurei, tinha 11 blogs – curiosamente, 3 literários. Em Portugal, o Público passa à frente de outros diários generalistas: são, ao todo, 11 blogs e, neste rol, destaca-se o “O blog do Provedor dos Leitores” (ombudsman do jornal).

No Brasil, o jornal O Globo, entre 2003 e 2006, lançou 39 blogs. O jornal não efetua uma divisão aparente entre blogues de colunistas e os temáticos (ou de outra natureza) mantidos pelo portal Globo.com, mas todos os links para blogs do portal lá estão.

O número de blogs é muito elevado nos meios de comunicação com presença na web. Respeitadas as devidas diferenças editoriais e culturais, a impressão com a qual fico é a de que era preciso “entrar na onda”.

Mas entraram na onda sem se deixarem contaminar pela cultura digital. Os jornalistas criam e mantêm os seus blogs nos “big media” seguindo mais a lógica da cultura do jornal impresso. Ou seja, mantêm, de fato, colunas.

Neste sentido, para muitos meios, blog foi apenas uma maquilagem nova para uma velha idéia: a idéia de se fazer uma coluna de opinião. Logo, não são espaços de conversação; não fogem à lógica de comunicação unidirecional.


11 de setembro – o “BigBang” dos blogs

5) Quando eu comecei, em 2003, e acredito quando você começou a blogar em 2001, era muito comum os blogs serem tratados como “diários de adolescentes”. Blogs mais sérios eram vistos um pouco como estranhos no ninho. Alguns até com baixa aceitação. Você não acredita que hoje está acontecendo o contrário? Parece que todo blog tem uma certa necessidade de ser sério, produzir conteúdo noticioso e próprio, e blogs descompromissados ou em formato de diário ficam um pouco de lado, não são mais uma referência?

No Brasil, de fato começaram como uma atividade juvenil, lúdica, descompromissada. E, depois, criou-se essa necessidade de seriedade, compromisso. E penso que isso seja uma influência direta dos blogs de jornalistas sérios criados nos meios de comunicação social presentes na rede em relação ao restante dos blogs.

Parece que agora ouço “blogar agora é importante, coisa de gente séria”. O fato é que não fui nem mais nem menos séria do que costumo ser ao criar a minha conta no Blogger em 2001, antes de tudo isso ser “coisa de gente séria”.

Em Portugal, entretanto, o movimento dos blogs já começou mais sisudo. Um marco na história da blogosfera daqui é a criação do blog “Abrupto”, de Pacheco Pereira, um comentador político, formado em filosofia, um homem que já foi deputado; ou seja, não dá para falar, para este caso, que blog foi coisa de adolescente. Na Espanha, para terminar com um terceiro exemplo, vejo uma blogosfera feita maioritariamente por gente que já desde há tempos está familiarizada com a rede e que gosta de manter um nível de qualidade nas postagens.

Peguei dois exemplos para comparar com o Brasil, mas poderíamos ficar a vida aqui a fazer comparações. Daí podemos deduzir também que os dez anos não foram iguais em vários cantos do planeta e que a percepção de que as pessoas têm a respeito do que seja e para que serve um blog pode alterar-se bruscamente de sociedade para sociedade. Não dá para generalizar.

6) Como você acredita que serão os blogs daqui a 5 anos?

Os bons ficarão melhores. Os ruins continuarão engrossando o lixo da rede.

7) Ah, só por curiosidade – você se lembra do primeiro blog que visitou? ;)

Como eu disse no início desta entrevista, há dez anos ninguém sabia o que era blog. Se naquela época, lá pelos idos de 1997, eu me deparei com algum pela web, certamente que não o identifiquei como tal. Tenho somente um registro emocional em minha memória. Lembro-me, por exemplo, de em 2001 ver o blog Jornalismo e Comunicação e pensar: “putz, é algo assim que quero fazer”. Não cheguei completamente lá, mas sigo tentando com o blog coletivo Intermezzo. Sigo, enfim, blogando.

Publicado por Tiago Dória, em 12 de março de 2007 (Segunda-feira).
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Entrevista com Rodolfo Sikora, do iJigg

Lembre-se desse nome – iJigg. É uma espécie de YouTube/Digg da música – você sobe uma música e os usuários comentam e votam nas que devem ficar em destaque na página inicial.

Em menos de um mês de existência, o site já foi sondado por diversas gravadoras e lojas de música online, foi citado em diversos blogs e revistas e é considerado, ao lado de LastFM, Pandora e iLike, uma das ferramentas da junção ‘internet/música/rede social’ mais inovadoras e bacanas de todos os tempos.

E o mais legal de tudo isso – um brasileiro é um dos criadores e desenvolvedores. Conversei com o cearense Rodolfo Sikora, 26 anos, Chief Technology Officer do iJigg.

Rodolfo falou sobre Web 2.0, o desenvolvimento da ferramenta, contrato de direitos autorais DMCA, entre outras coisas. Bem significativo ver um brasileiro talentoso desenvolvendo algo assim. É o Brasil que funciona.

1) Gostaria que você falasse um pouco sobre você – sua formação acadêmica, locais e projetos onde trabalhou…

Cara, eu fiz 3 anos de Engenharia Elétrica na UFC (federal do Ceará) quando recebi uma proposta para trabalhar na Inova Tecnologias em São Paulo. Daí abandonei a faculdade que era muito sem futuro por sinal e fui para lá. Como estava na área tentei fazer Ciências da Computação na UNIB, mas a faculdade era extremamente fraca e, depois de um semestre, eu também desisti.

Como passei achar que o problema era comigo e não com as faculdades, voltei para Fortaleza e estou fazendo, pasme, Direito na UNIFOR. Estou no segundo semestre e estou admirado com a qualidade do curso, bem como com a teoria legal que estou aprendendo (duvido que a prática seja bonita… mas por enquanto a teoria está indo muito bem).


“Não importa se é web 2.0 ou web 3.0, a tecnologia deve ser um meio e não um fim”

Sobre projetos onde eu trabalhei, vamos lá:

Com 13 anos, fiz meu primeiro software comercial – era um “troço” feito em clipper e dbase que eu fiz para uns advogados, para ajudá-los com os cálculos dos aposentados do INSS.

Lembro de ter ganho R$ 1.000, e fui correndo comprar meu Kit Multimídia Sound Blaster 16 e uma impressora HP500C. Depois criei um BBS, AccessNet BBS, na época em que internet no Brasil existia só nas faculdades e escolas técnicas. Durou 7 meses, quase deixo meus pais loucos com telefone tocando a madrugada inteira em casa.

Dei aula de Física para turmas de 3º ano, mas não deu certo – eu era muito novo e meus alunos eram meus amigos. Daí você imagina a comédia. Fui dar aula de robótica para crianças de 10-12 anos… eu me divertia e eles também.

Em 2000, comecei a trabalhar no Jornal O POVO, fazia parte da equipe de operação, trabalhava de madrugada, fazia backup e essas coisas chatas, quando tive meu primeiro contato com PERL/CGI.

Em 6 meses, fui chamado para trabalhar no email.com.br, onde minha vida mudou. Aprendi em 6 meses, coisas que levaria 6 anos para aprender em outros lugares. Em 2001, criei minha primeira empresa, a Oktiva, onde, devido a conflitos societários resolvi sair quando recebi a proposta de trabalho em São Paulo.

Era responsável por todo o serviço de e-mail do Click21 (Embratel), Veloxmail (Telemar), e ainda hoje administro, de certa forma, alguns destes serviços dentre outros clientes como o email da GOL linhas áereas.

Em abril de 2006, voltei para Fortaleza trabalhando de casa para algumas empresas no Brasil, e, no final do mesmo ano, o Zaid (indiano) veio com a idéia de montar o iJigg. Deu no que deu.. ou melhor no que está dando.


Zaid, Rodolfo, Dolon e Farooqui: equipe do iJigg

2) Como surgiu a idéia do iJigg e o seu envolvimento com o projeto? Você trabalha online aqui, direto do Brasil?

Eu trabalho daqui de casa no Brasil, Fortaleza-CE, quando meu provedor deixa (tenho um link de rádio, que funciona 50% do tempo). Eu conheci o Zaid em 2002, quando comecei a fazer programas para o Rent a Coder (alugue um programador). Era como eu conseguia grana para pagar minhas contas… era muito complexo trazer os dólares para o Brasil… mas sabe como é.. damos um jeito para tudo.

Em 2005/2006, eu perdi o contato com o Zaid, que conheci no Rent a Coder. Na época, fiz uns 3 projetos para ele. Pensei até que ele tinha morrido (ele tem uns problemas de saúde), mas, no final do ano, ele me procurou com a idéia do iJigg, que era algo em que eu pensava.

Mas como não sou bom de desenhar as minhas idéias, ele foi fator decisivo para botar no papel o que eu tinha na cabeça e que, por coincidência, era o que ele tinha.

Resumindo – além das idéias iniciais do projeto, eu fui o responsável por toda a programação do site. Dei vida ao design feito pelo Zaid.

3) Você é o único brasileiro envolvido no desenvolvimento do iJigg. É comum encontrar outros brasileiros desenvolvendo esse tipo de ferramenta em conjunto com pessoas de fora do país?

Sim, sou o único brasileiro. Existem muitos brasileiros envolvidos em projetos internacionais. Você pega o Marcelo Tosatti, que é responsável pelo kernel 2.4 do Linux… o cara tem uma responsabilidade imensa nas mãos. O lance é que o kernel é algo que roda no Sistema Operacional “escondido” do usuário, portanto, a divulgação não é tão grande. Fora o pessoal da Perl Foundation, os Debian Developers só para citar alguns projetos. Brasileiro está em todo canto e consegue trabalhar em grupo muito bem.

4) Quais são as principais dificuldades que vocês encontraram ou estão encontrando no desenvolvimento e manutenção do iJigg e como estão fazendo para contorná-las?

Cara, a maior dificuldade é manter a inovação… fazer o site prender o usuário e ser útil para ele. Tem muita sugestão vindo e pouco tempo e pessoal para desenrolar. Outra coisa complicada são os usuários que postam material indevido [com direitos autorais protegidos]. Outra coisa é que criamos uma expectativa muito grande. Estamos na correria para manter o alto nível funcional do site.

Queremos que as pessoas voltem, queremos que os artistas consigam ter um retorno dos usuários, queremos que gravadoras vejam e contratem estes artistas. Queremos que as pessoas descubram músicas novas e de qualidade.

Outro ponto complexo é a manutenção do algoritmo de popularidade, todo dia aparece gente tentando quebrar o algoritmo, e estamos sempre atualizando e modificando para evitar este tipo de coisa.

5) Vocês vão assinar uma espécie de contrato DMCA – Digital Milennium Copyright Act. Como isso funciona?

É uma espécie de código legal que prevê, entre outras coisas, a responsabilidade dos ISPs (provedores de serviços de internet, o iJigg por exemplo) bem como os procedimentos que devem ser adotados.

De forma resumida, significa que quem presta o serviço deixa de ter responsabilidade sobre o conteúdo que está sendo postado por seus usuários, desde que forneça meios eficientes de combate à pirataria e que acate as decisões e comunicados da RIAA (Recording Industry Association of America).

6) O iJigg já chamou a atenção de vários blogs e empresas – revista Rolling Stone, Amazon, entre outros. Vocês já receberam algum convite para trabalhar em parceria? Já fecharam alguma coisa concreta? Passa pela cabeça de vocês em um dia vender o iJigg?

Existem muitas propostas rolando. Muitas idéias, muita gente querendo fazer parceria. Desde o carinha que tem um site local e quer fazer uma pequena integração com o iJigg, até essas empresas citadas e outras que não podemos citar os nomes (gravadoras e empresas de telecomunicação).

Todas elas têm uma proposta diferente, desde parcerias até a compra do iJigg. Mas o que eu posso lhe falar é que até o momento só tem muito blá blá blá e pouca coisa concreta. Para você ter idéia, ainda tenho que manter meu antigo trabalho paralelamente para pagar minhas contas.

A venda do iJigg ou parte dele como deve acontecer é algo que eu encaro com naturalidade…. para o site crescer e atingirmos nossos objetivos temos que ter uma fonte de investimento pesada. Quais nossos objetivos:

* Aumentar a equipe de desenvolvimento
* Ter milhões de dólares para gastar com festivais independentes
* Ter milhões de dólares para abrir uma fundação e apoiar as pessoas que gostam de música. Quero dar a oportunidade que não tive para outros. Em outras palavras, não quero que uma pessoa desista do seu sonho de ser um músico, apenas porque com música ele não ganha o suficiente para pagar as contas.
* Poder continuar trabalhando no iJigg, que é algo em que acreditamos, mas eu ainda vivo no mundo real. E tenho que pagar a conta de luz. Minha filha vai nascer em maio, logo preciso ter uma fonte de renda e espero que seja do iJigg.

Ou seja, a venda é algo que deve acontecer, mas nestes processos de venda normalmente não se vende 100% da empresa, apenas parte dela.

7) O iJigg é considerado um serviço da Web 2.0. Qual a sua opinião sobre esse negócio todo de Web 2.0? É uma revolução ou evolução da web? Ou apenas uma ‘buzzword’?

Cara, você tocou num ponto chave. Se você ler meu blog, vai ver que eu sou um cara meio estressado com esse negócio de tecnologia. Web 2.0 para mim é um rótulo para identificar a revolução atual da web, que basicamente surgiu com o advento do AJAX e da possibilidade de integração simplificada entre tecnologias. Agora quer realmente saber minha opinião? Nada disto interessa se não servir para facilitar a vida das pessoas.

Muitos projetos não dão em nada por que eles estão sendo feito em nome da tecnologia e não em nome das pessoas, que vão usar a tecnologia.

A internet não deve funcionar para internet, deve ter uma razão. Seja para evitar que você pegue uma fila no banco, seja para o entretenimento, como é o caso do Youtube e do iJigg. Então esse lance de Web 2.0 só tem sentido e força porque revoluciona a forma das pessoas usarem a internet.

As coisas ficam mais claras, mais fáceis e mais simpáticas. Agora veja, os bancos ainda não aderiram ao movimento, e nem tem por que aderir.

Eles estão lá funcionando bem e não existe necessidade de um aprimoramento. Agora veja o Orkut por exemplo, um detalhe Web 2.0 aparece quando você responde um scrap. Antes você tinha que ir no scrapbook do teu amigo e responder. Agora você responde sem precisar de muito esforço.

Então, cara, eu sou fã de coisas que funcionam e facilitam a vida das pessoas, não importa se é Web 2.0 se é Web 3.0 ou se nem é web… a tecnologia deve ser um meio e não um fim.


“Não quero que uma pessoa desista do seu sonho de ser um músico”

8 ) Você está em uma posição significativa – desenvolveu uma ferramenta que está ganhando elogios e repercussão em toda a web. Qual a dica que você dá para quem está começando ou pensando em desenvolver um serviço Web 2.0?

1. Fazer algo que você acredita, algo que você usaria porque tem necessidade e por que é legal

2. Não perderia tempo com detalhes, “just do it”. Depois você perde tempo com frescura.

3. Procure criar coisas de baixo custo por que você, antes de tudo, precisa manter seu serviço no ar.

4. Não se preocupe em usar Ruby on rails, Php ou Java só porque estão na moda. Use aquilo que você tem conhecimento/domínio

5. Não tenha medo de pegar boas idéias e utilizá-las. Nada é 100% original. O Google não existiria se os caras não tivessem “copiado” a idéia do AltaVista ou do Yahoo. Se você gostou de algo e acha que serve no seu projeto, tente pegar a idéia e melhorar se possível. (O criador do Youtube falou que o Youtube é uma copia aprimorada de vários outros serviços)

6. Assista à palestra do cara do Youtube

7. Lembre-se que você não é melhor ou pior do que ninguém e que as pessoas podem te ajudar e você pode ajudá-las. Não tenha medo de pedir ajuda e opiniões

8. O dinheiro não deve ser a causa. Se tua idéia for boa e bem executada, o dinheiro será a conseqüência (espero que seja mesmo)

9. Esteja preparado para poucas horas de sono.

Publicado por Tiago Dória, em 8 de fevereiro de 2007 (Quinta-feira).
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Entrevista com Marco Gomes, do boo-box

Bati um papo por email com Marco Gomes, um dos desenvolvedores do boo-box, um sistema brasileiro de ‘monetização’ de blogs, que ganhou, nesta semana, repercussão internacional em diversos blogs que cobrem a Web 2.0, indo parar no Techcrunch e no Go2Web20. Que eu lembre, tornou-se uma das ferramentas da Web 2.0 brasileira com mais destaque lá fora.

1) Vocês realizaram parte do sonho de muito empreendedor web brasileiro. Já ganharam repercussão internacional com uma ferramenta produzida aqui, no Brasil. Ainda está no começo, mas é o primeiro passo. Como você vê tudo isso? Você acredita que o fato do serviço ter uma versão em inglês e ter uma “postura global” – ser voltado tanto para o usuário brasileiro como o de fora do país – pesou para ganhar essa repercussão?

São apenas 5 dias desde o lançamento, não tivemos como cair na real ainda. Mas fizemos o lançamento dividindo-o em etapas, liberando “o que estiver pronto” a cada semana. É obvio que não esperávamos essa repercussão toda, mas nos preparamos para uma penetração na ‘blogosfera’ mundial sim.

Inicialmente o serviço sequer teria uma versão em português, mas percebemos que teríamos muito mais aceitação dos blogueiros se afirmássemos nossa origem.

Nós não somos uma “empresa”, somos blogueiros. O Rapha tem uns 342² blogs, cujo carro-chefe é o Propaganda Interativa e eu tenho o MarcoGomes, agimos SEMPRE pensando nos três lados: blogueiro, comprador e loja online. Tanto que até a instalação do produto é o mais simples o possível, com apenas uma linha de HTML.


Destaque no Techcrunch

2) Como é a estrutura do boo-box? Bem “de garagem” :-) ? Como vocês estão se virando para tocar o projeto em frente?

Pois é, o boo-box são duas pessoas: Marco Gomes e Raphael Vasconcellos, e nossas madrugadas sem sono. Somos ajudados por amigos fazendo partes do design, ajudando na hospedagem, fazendo arquitetura, programação, consultoria. Sempre temos o apoio desses nossos manos pra fazer o boo-box acontecer, sem eles o boo-box seria fonte “Times” preta sobre um fundo cinza =)

Mas o mais importante são os blogueiros, espalhando a notícia, fazendo resenhas em váriados idiomas, apontando falhas e exaltando suas qualidades. É muito importante receber e-mails que nos motivem a continuar, nada como ler um e-mail às 3 da madruga de alguém de Singapura dizendo que o serviço é “aewsome”, ou que “vamos mover montanhas” =) Mas também é importante ouvir as críticas e pesá-las com cuidado.

3) Como surgiu a idéia do boo-box? Percebo uma semelhança com o Like, na maneira de associar fotos a sites de compras.

A história é complexa, mas resumindo bastante posso dizer que foi uma idéia ingênua que eu tive algum tempo atrás. Às 2 da madruga mandei e-mail para o Rapha mostrando uma foto da Gisele Bündchen de All Star, dizendo que a gente podia vender o All Star dela, mas foi só isso, sequer lembrei disso no outro dia, estava meio bêbado de sono. Faço isso até hoje, são mil idéias populando a caixa-de-entrada dos amigos, têm umas que são bem idiotas =)

Voltando ao boo-box: foi uma idéia bem boba que enviei para o Rapha, que com sua infinita experiência e feeling, amadureceu para o que é o boo-box hoje. Ele criou modelo de negócio, viu onde poderíamos atuar, como atuar, como seria o produto, até mesmo a idéia da “caixa sobre o site” é dele. Conhecemos o Like depois da nossa idéia definida, ele não nos influenciou muito desde então, são produtos bem diferentes.


Destaque também no mais importante diretório da Web 2.0

4) Existem muitas dúvidas sobre como vocês vão ganhar dinheiro com o boo-box e as parcerias com sites de afiliados? Já existe um modelo de negócios? Como vai funcionar? Quando começa a fase beta?

Os beta-testers inscritos no site poderão testar a ferramenta na sexta-feira, dia 26. Quanto às dúvidas sobre lucratividade, parcerias, modelo de negócios, bem, é simples, nós queremos que as lojas se interessem em entrar no boo-box, é delas que virá o dinheiro, não do blogueiro. A partir do momento que um produto é vendido a partir do site do blogueiro, a comissão é toda dele, nós queremos mais é que as pessoas fiquem ricas (!) vendendo com o boo-box.

5) Qual o recado que você pode mandar para o pessoal que quer montar um negócio na área de web 2.0? Alguma dica?

Não posso dar dicas para quem quer montar um “Negócio”, sequer consigo administrar minhas contas! Mas se você quer criar um serviço, bem, nisso eu posso tentar ajudar:

1) Seja útil.
2) Tenha uma “missão” e não se desvie de maneira nenhuma.
3) Não copie. Não importa se o serviço que você pretende copiar não existe em português, se você quer um serviço em português entre em contato com o responsável e peça uma versão traduzida, se ofereça para ajudar na tradução, mas não copie! Eu mesmo fiz parte da equipe de tradução do FeedBurner para o português.
4) Planeje-se um pouco, mas não muito, senão o projeto nunca sai. Só se preocupe com os problemas quando tive-los, não interessa se seu servidor não suporta 4 mil usuários simultâneos, você não tem 4 mil usuários simultâneos ainda né?
5) Faça o produto ser bonito, mas não se atrase por conta de “10 pixels pra direita”. Enfim, tenha bom senso =)
6) Tenha contatos, pessoas preferem usar serviços de quem conhecem.

Publicado por Tiago Dória, em 24 de janeiro de 2007 (Quarta-feira).
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Entrevista com Tiago Casagrande, da Verbeat


Tiago: ‘Para cada blog de política nos EUA, temos um de literatura ou poesia aqui’

E continuam as entrevistas com o pessoal da blogosfera no Brasil. Desta vez, bati um papo com Tiago Casagrande, um dos criadores da Verbeat, que tem como anexo a Verbeat Blogs, uma rede ou ‘condomínio’ de blogueiros brasileiros.

O que eu gosto na Verbeat é que ela reúne diversos blogueiros ligados a literatura e poesia. Aliás, acredito que os melhores textos da blogosfera brasileira estão lá. E acredito também que essa seja a última entrevista do ano. Para fechar com chave de ouro ;-)

1) Quais as diferenças entre os blogs e as mídias anteriores? Se é que elas existem?

O inovador – e até mesmo o revolucionário – nos blogs é a liberação do pólo emissor da comunicação dentro de uma mídia de longo alcance. Na verdade essa é uma característica da internet, que é uma rede aberta a quem puder e quiser fazê-la; o blog surgiu como ferramenta desse conceito, eliminando barreiras de programação ao leigo e facilitando as tarefas de publicação de conteúdo online.

Isso aumenta o número de fontes geradoras de conteúdo e democratiza a informação. Hoje, o grande produtor dessa mídia é o todo do público que bloga – a soma de suas vozes individuais, ecoando e replicando até que a mensagem se esgote.

Outra característica que vejo retomada e amplificada é a conversação um-a-um. Nos media tradicionais, largo alcance e intimidade são objetivos incompatíveis; enquanto que, nos blogs, eu falo para você e você pode me responder assim que desejar. Esse feedback incorporado em tempo real ao processo de comunicação é brilhante, e reestabelece o elo perdido entre emissor e receptor.

Ou seja: em certos aspectos, as diferenças são tão notáveis – e ainda lembremos da facilidade de acesso ao blog, em comparação à produção em qualquer outro canal – que o blog custou a ser visto de maneira correta: como mídia, e não como produto. Todos lembramos da primeira onda, com os jornais televisivos noturnos retratando os blogs como “os novos diarinhos virtuais” ou uma “febre adolescente”…

2) Como surgiu a Verbeat? Como foi juntar todo esse pessoal? Acredito que a Verbeat seja a rede de blogs mais numerosa no Brasil.

Eu e Leandro Gejfinbein criamos a Verbeat como o veículo online dos nossos projetos. Um deles é a Verbeat Blogs, que veio na busca de um espaço próprio para blogar e fomentar a mídia, além de melhor controle sobre o conteúdo. Ao invés de pensar num coletivo blogueiro, preferimos a noção de condomínio: não são características comuns que nos agrupam, mas o local onde estamos. E mantendo todas as nossas diferenças.

Dentro dessa concepção é que fomos crescendo: começamos como três amigos e fomos captando blogs ao redor, basicamente de leitores (como a Olivia e o Marco) e de blogueiros que admiramos (como o Milton e o Flavio, só pra dar dois exemplos – admiração tem de sobra pra um monte de gente.)

Aos poucos, uns moradores indicaram outros, e assim por diante (e teve até o caso de pressão da própria blogosfera, que prática e felizmente nos empurrou o popstar Biajoni). Nosso único critério foi o da qualidade – do texto e da pessoa, e a diversidade.

Nesse ano seguramos um pouco a expansão, mas em 2007 o número deverá voltar a crescer, especialmente com blogs de temática definida. Outros projetos em comunicação e contemporaneidade devem sair da Verbeat, também.


Blogueiros da Verbeat: Ler refresca!

3) Qual sistema de publicação de blogs vocês usam na Verbeat? E por que o escolheram?

Estamos rodando em Movable Type. Foi nossa escolha por ser um sistema que acreditávamos conseguir instalar no servidor; tinha uma boa documentação. Possuir uma base de usuários já formada também influenciou. Acabamos nos acostumando, decoramos algumas tags, e até hoje tivemos poucos problemas. Principalmente após a versão 3, que faz um bom trabalho contra spammers.

4) Recentemente, a Justiça da Califórnia, nos EUA, decidiu que os blogueiros não responderão mais judicialmente por comentários feitos por leitores na caixa de comentários do blog. Qual a repercussão dessa decisão, levando em conta que o blog brasileiro Imprensa Marrom foi condenado por um comentário publicado na caixa de comentários? Você acha que isso pode aumentar os flamewars?

A decisão da justiça norte-americana não apenas dá amparo ao blogueiro, mas reestabelece a cidadania por confirmar uma ordem lógica: em caso de ofensa, responsabilize-se o autor da ofensa. É preciso, e parece que o judiciário brasileiro ainda não compreendeu isso, que se diferencie o trabalho autoral (o post) da área de conversação (a caixa de comentários). Imputar penalidades ao blogueiro pelo que entra na sua comment box é proteger aquele que ofende.

No caso do Imprensa Marrom, mal comparando, é como se assaltassem um boteco e a polícia prendesse o dono do estabelecimento. E o caso cheira mal: por que jamais foi solicitado ao blogueiro que retirasse do sistema o comentário ofensivo? A saída mais simples, em tempos de incentivo aos tribunais de conciliação, não foi sequer solicitada.

De qualquer modo, não acho que a decisão faça aumentar os flamewars. Eles existem porque há pessoas de algum modo interessadas neles; se você não quer alguém lhe xingando no seu blog, expulse ele de lá. Por ser uma micromídia pessoal, as regras podem ser definidas pelo próprio autor.

Na Verbeat Blogs, quem sofre de tempos em tempos com trolls é a Leila, que fala bastante (e com propriedade) sobre política internacional. Ela já tem experiência, lida bem com isso e tem total domínio nas decisões sobre seu blog, mas sabe que se dependesse de mim, já teria barrado o IP de qualquer um que partisse pra ofensa pessoal sistemática. Quer xingar, tá nervoso? Abre um blog. Não na Verbeat, obrigado.


Matt: ‘blogueiros devem seguir as normas éticas das velhas mídias’

5) Em uma entrevista ao jornal Cinco Dias, Matt Mullenweg, criador do WordPress, disse que os blogs devem pelo menos seguir as normas éticas das velhas mídias. Você concorda com essa visão?

Talvez seja uma boa idéia, mas e que tal as velhas mídias seguirem suas próprias normas éticas também? Se os blogs como uma forma de jornalismo (e jornalismo é função, além de profissão) encontraram espaço, é porque a imprensa tradicional tem falhado, inclusive nesse aspecto. O jornalismo está repensando sua ética, e os blogs motivaram em parte essa discussão. E isso é muito salutar – especialmente para o público.

Pessoalmente, acho que os blogueiros devem valer-se principalmente de sua ética pessoal ou de grupo, e trabalhar com transparência nesse sentido – algo que freqüentemente acontece, já que autores são amadores, ou seja, o fazem por paixão. Algum cuidado ao escrever, lisura com o texto, honestidade, e pronto. Um blog é seu autor, não um conselho editorial; se fosse, não seria blog. Se o autor cometer um deslize ético, será julgado pela própria comunidade. Isso já ocorre.

6) Vocês publicaram neste ano uma pesquisa sobre os blogs no Brasil. Quais são as principais características da blogosfera brasileira? E mais – o que você acredita que difere a blogosfera brasileira da blogosfera de outras países? Existe alguma característica que é mais evidente?

O que a pesquisa detectou, em primeiro lugar, é que blogs são páginas autorais e pessoais acima de tudo; o blogueiro não abre mão do olhar opinativo sobre quaisquer fatos, pelo contrário – está feliz por ter achado um canal de longo alcance para dizer “eu penso que”. Isso reflete-se no fato de que mais de 75% dos autores identificam-se com nome ou apelido “real” (o mesmo fora da internet) em sua página.

Surpreendeu-nos ver a multiplicidade de facetas da mídia. Se por um lado pudemos ver que os blogs estão firmando-se como uma fonte complementar de notícias, procurada para obter diferentes visões dos assuntos – inclusive, mais de 60% afirmaram considerar o blog como uma espécie de imprensa alternativa -, 80% dos pesquisados afirmaram que lêem blogs por diversão e entretenimento. Isso não significa que apenas blogs de humor tenham audiência – mas que, quando a notícia torna-se um bate-papo interessante, é diversão.

O que nos diferencia da blogosfera de outros países é que temos menos blogs temáticos (focados num determinado assunto) do que norte-americanos e ingleses, aparentemente não nos interessamos pelos trocados da lincania patrocinada (já que o uso do Google AdSense e afins é muito pequeno nos blogs daqui) e, também, aprendemos a canalizar melhor a produção cultural/artística para essa nova mídia.

É apenas uma estimativa por alto, mas acho que para cada blog de política nos EUA, temos um de literatura ou poesia aqui. E assim como alguns analistas políticos, lá, estão saindo dos blogs e indo para a grande mídia, temos autores usando a blogosfera como catapulta para as livrarias. Nossa Olivia é um exemplo.


Marco Brasil, Tiago, Olívia Maia, Leandro Gejfin e Renato K

7) Como você acredita que serão os blogs daqui a 5 anos?

Ferramentas de conectividade geográfica, novas gerações da web e o crescimento de acesso móvel e em banda larga tendem a deixar os blogs mais velozes e integrados ao nosso dia-a-dia. Blogs serão um espaço estabelecido e híbrido entre notícia, repercussão e debate. Poucos blogs serão campeões de audiência, mas isso importará pouco.

Leitores de RSS em celulares ou dispositivos como o iPod deverão levar o texto para o bolso do público, que poderá também gerar conteúdo por ele – o liveblogging acontecerá corriqueiramente. Podcasts e videoblogs são variantes que acompanharão a evolução da mídia, mas serão secundários dentro da perspectiva blog; o texto não será abandonado. A palavra é o grande catalisador da blogosfera, e é por causa dela que os blogs podem ser fascinantes.

Publicado por Tiago Dória, em 21 de dezembro de 2006 (Quinta-feira).
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Entrevista com André Avorio, direto da Le Web 3



Bati um papo por email com André Avorio, organizador da primeira BarCamp brasileira e talvez o único brasileiro presente na conferência Le Web 3, em Paris. Ele contou um pouco o que está acontecendo por lá. Percebe-se que o assunto ‘Bolha 2.0′ esteve presente.

1) Pelo que eu vi na lista de inscritos, você é o único brasileiro na conferência?

Foi o que também concluí olhando para a lista há alguns dias. :)

2) Qual a sua impressão sobre esse primeiro dia de conferência? O que deu para absorver? Quais assuntos chamaram mais a sua atenção?

Gosto quando misturam-se pessoas com diferentes backgrounds para conversar sobre idéias que extrapolam as limitações da internet, ou que a colocam numa posição de análise que nos obriga a pensar com maior amplitude. Fiquei extremamente contente com a sessão pelo professor Hans Rosling sobre mundialização, por exemplo.

Ele colocou todo o papo sobre 2.0 de lado para mostrar o mundo como ele é, e quais são as reais necessidades de um ponto de vista realmente global e inclusivo. Ter alguém para nos lembrar da realidade de minorias que não têm voz em um ‘mundo de vozes’ é nobre e inspirador.

É interessante também perceber a auto-crítica a que submetem-se VCs e empreendedores na tentativa de evitar uma bolha 2.0, apesar de existirem opiniões bastante divergentes sobre o assunto.

A discussão é rica, longa, obscura, e não espero chegarmos a nenhuma conclusão ou predição, porém. Julgo bastante relevante mantermos essa auto-crítica e observação constante do mercado para crescermos de maneira concreta.

3) Qual o perfil dos participantes da Le Web 3? Blogueiros e empreendedores web?

Empreendedores, VCs, blogueiros, jornalistas, criadores de conteúdo online (e.g. podcasts, videocasts), desenvolvedores, profissionais de publishing houses, relações públicas, telecomunicações, etc.


Niklas: ‘A imprensa não está morta’/ Fotos: Sachaqs

4) Pelo o que deu para acompanhar por aqui, via blogs, dois assuntos ganharam repercussão – Niklas Zennström, do Skype, que disse que a imprensa não morreu, e Danny Rimer, que afirmou que há um excesso de empresas Web 2.0, dando a entender que existe uma “Bolha da Web 2.0″. Você concorda com essas duas visões? Isso repercutiu por aí?

Estou de acordo com o Niklas – acredito que a imprensa velha não morreu, mas está, sim, passando por um processo de transformação que me parece fundamental para que continue existindo a longo prazo. O grande desafio, acredito, é combinar essa mídia nova e social com o antigo modelo de produção de informação.

Quanto à bolha 2.0: existem zilhões de startups sendo criadas todos os dias pelo mundo, e isso não necessariamente significa que o único caminho a seguir é o que leva a uma segunda bolha.

O mercado está passando por uma fase tão rica como nunca antes, mas ao mesmo tempo mostra-se muito mais maduro quanto nunca antes também.

As pessoas continuam experimentando, afinal essa é uma das essências mais belas da internet, mas somente algumas poucas empresas conseguem atingir um modelo de negócios sustentável e, consequentemente, acabam se mantendo no mercado.

Se precisa-se de uma metáfora com bolhas, eu colocaria desta forma: não existe uma grande bolha 2.0 chegando; existem milhares de empresas pelo mundo, e cada uma delas é uma pequena bolha.

Aquela que consegue se estruturar, deixa essa estrutura volátil e se transporta para um porto seguro; aquelas que não conseguem, duram até a tal bolha atingir o solo ou, quem sabe, explodir no meio do caminho.

Publicado por Tiago Dória, em 12 de dezembro de 2006 (Terça-feira).
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Entrevista com Gabriel Pillar [1984-2006], do Insanus


Pillar/foto: Carol Bensimon

Já há algum tempo deu na telha de começar a fazer entrevistas com diversas pessoas da blogosfera, no Brasil e no exterior. Não vão ser semanais, nem mensais. Vai sair quando tiver assunto. A primeira delas é com Gabriel Pillar [1984-2006], editor ou coordenador – como preferir – do Insanus, uma rede brasileira de blogs, que reúne 21 diários e um mais um podcast sobre diversos assuntos.

Na minha opinião, um dos mais consistentes coletivos de blogs do Brasil, por conseguir absorver bem toda essa coisa dos blogs – informalidade, opinião e ‘faça você mesmo’.

1) Quais as diferenças entre os blogs e as mídias anteriores? Se é que elas existem?

O blog é atualmente uma das mídias mais dinâmicas, primeiro por não precisar responder à ninguém. Também, a facilidade de publicação faz com que qualquer pessoa, com os mínimos conhecimentos técnicos, possa contar suas histórias, relatar ou questionar algum episódio.

E a rapidez na disseminação de informações, que não seria um fenômeno dos blogs em si mas sim da própria estrutura da Rede, é potencializada ao máximo com isso.

Ele é, ao fim, uma ferramenta de comunicação. Se vais usá-la como mídia de massa, ou como simples veículo pessoal para manter um pequeno círculo de amigos informados sobre uma viagem, por exemplo, vai depender do “blogueiro” e do que cada um busca com o seu blog.

2) Qual a ‘receita’ para uma rede de blogs como o Insanus funcionar? União entre os blogueiros, afinidades, amizades anteriores?

Claramente o Insanus não funciona. Novamente, haverá uma “receita” dependendo do uso que queres fazer destes blogs. O Insanus é uma rede de amigos, funciona porque nos conhecemos do dia-a-dia e porque tem alguém pra segurar as pontas e organizar o servidor todo o mês. Não funcionaria como qualquer outra coisa.


Cuidado! Blogueiros do Insanus/Foto: Sabrina Fonseca

3) Qual sistema de publicação de blogs vocês usam no Insanus? E por que o escolheram?

Movable Type. Apesar de ser um tanto pesado no servidor, o MT tem uma interface bastante amigável, o que é muito necessário pra gente. A maioria das pessoas não são tech savvy, então tem que ser algo bem organizado e com poucas complicações, mostrando só aquilo que é essencial. Faça o usuário clicar mais de três vezes (e ainda ter que encontrar os links no meio de um monte de outros) e ele sai correndo na hora. Simplicidade é a única forma possível.

4) Duas redes internacionais de blogs já estão no Brasil: a Gothamist e a Metroblogging. E Anita Campbell, da Creative Weblogging, deu a entender recentemente que o mercado de blogs já está saturado nos EUA e que eles têm a intenção de ir a outros países. Você acha que isso pode acontecer no Brasil? Redes internacionais de blogs começarem a investir aqui?

Está saturado porque estes blogs ou redes maiores parecem não entender o que realmente está acontecendo, simplesmente migrando modelos tradicionais de mídia para dentro da Internet.

Claro que redes globais terão um forte apelo, e terão milhares de leitores, e os anunciantes irão babar com os números, mas isso é uma grande bobagem, porque no fundo eu acho que leitor quer é discutir e saber sobre seus espaços locais. Quer participar. Não é uma questão de investimento. Dentro do universo de blogs, a pequena escala é o que há de mais interessante e, porque não, revolucionário.

5) Você é a favor de publicidade em blogs?

Como em qualquer outra mídia, não vejo nenhum problema em vender espaço publicitário, desde que isso não influencie no conteúdo.


Foto: Sabrina Fonseca

6) Você acredita que uma rede de blogs seja o melhor modelo para os blogs? É a melhor forma de organizar o conteúdo e buscar anunciantes? Vários blogs reunidos sobre diversos assuntos?

Como assim, alguém realmente ganha dinheiro com blogs? Enfim, uma comunidade com certeza traz bastante visibilidade, o que para alguns pode ser interessante. No fim vai depender do uso que queres para o blog.

Algumas pessoas não querem ser ‘pop stars’ da internet, mas simplesmente escrever pra sua família. Não existe o “melhor modelo”. Existem formas de uso do blog, que é simplesmente uma ferramenta. Nova, sim. Super bacana, sim. Mas que no fim deve ser explorada como apenas mais uma folha de papel A4.

7) Como serão os blogs daqui a 5 anos? Mais integrados à mídia tradicional? Consolidados como mídia?

Com o rápido crescimento no número de blogs, o grande problema vai ser encontrar conteúdo relevante. E aqui o modelo google de que os sites mais lincados são aqueles que irão me interessar já não funciona. Porque, como eu disse antes, o espaço local estará cada vez mais valorizado. Por isso as pequenas redes de blogs podem ser interessantes, pra agrupar pessoas de uma mesma região, ou que tenham interesses e abordem assuntos em comum.

*Uma semana após essa entrevista o Gabriel faleceu*

Publicado por Tiago Dória, em 29 de novembro de 2006 (Quarta-feira).
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