Perguntas que vamos ter que responder aos nossos filhos

Já comecei a escrever alguma coisa. Depois é só decorar as respostas ;-)

Papai, o que é Wired?

Era uma revista escrita por uns jornalistas que achavam que toda tecnologia e ferramenta web era revolucionária e acabava com tudo que existia antes. Em uma época, foi considerada a ‘Bíblia da internet’. Com o tempo a revista foi ficando chata, cheia de chavões – aquele papo de jornalista deslumbrado para jornalista deslumbrado – e o pessoal começou a ler blogs como ReadandWrite, The Next Net e Techcrunch, que explicavam melhor o que estava acontecendo na época.


Foto: James Burnes

E portal de notícias?

Era um site onde os caras juntavam texto, formal e fechado – igual ao do jornal impresso, com vídeo – normalmente um trecho de um jornal televisivo com linguagem de TV – e fotos. E, às vezes, abriam espaço para comentários no final das matérias. Comentários estes que nunca eram respondidos. Chamavam isso de multimídia. No final, achavam que tudo isso estava revolucionando a web e o jornalismo online. Era informação que não acabava mais, você ficava perdido quando entrava na página inicial. Coisa de louco.

E álbum de música?

Você não vai acreditar, mas era uma espécie de CD que vinha de fábrica cheio de MP3. No meio, músicas boas e ruins. Existia até um ranking – artista bom era o que vendia muitos desses CD’s. Tinha até um negócio chamado ‘disco de ouro’, ‘platina’. Sabe?

E lista de blogs mais populares? O que é isso?

Quando a blogosfera estava engatinhando e você nem tinha nascido, o pessoal tinha mania de fazer listas de blogs mais populares, com base no sistema do Technorati. Transpondo um pouco aquela idéia de ‘discos mais vendidos do ano’, ‘músicas mais pedidas na rádio’ etc. Enfim, resquícios da chamada ‘cultura do hit’ e de massa. Com o tempo o pessoal começou a tratar blogs como nichos.

E aí descobriram que essas listas não diziam nada. Hoje nem existem mais. Um blog que trabalha com um nicho específico nunca será o mais linkado. Você já sabe disso, né? Mas será o mais popular e importante naquele nicho. Para aquela comunidade de leitores. É que, naquela época, o pessoal não lia muito o Cauda Longa. E achavam que blog funcionava que nem programa de TV.

Publicado por Tiago Dória, em 31 de março de 2007 (sábado).
Categoria: blogging, humor, web2.0. Tags: , ,

Blogs são parasitas? Para mim, pouco importa

Está acontecendo um debate lá no Online Journalism Review sobre se os blogs são uma “mídia parasita” ou não. Ou seja, uma mídia que não pode existir sem as outras mídias. Que depende do conteúdo das outras para existir. Assim como este blogueiro que vos escreve, Nicholas Carr acredita que não existe problema em os blogs serem uma “mídia parasita”.

- Os blogs, afinal, começaram como logs ['registros de operações'], catálogos com data e hora, normalmente com descrições breves e, algumas vezes, com críticas sobre o que os escritores encontraram em suas perambulações diárias pela Web. Alguns dos blogueiros mais veneráveis – os Winers e os Searlses da vida – continuam a escrever dessa forma.

* Falo por experiência própria. Criei este blog em 2003, justamente para isso – registrar o que eu encontro de mais interessante em minha ‘perambulação’ pela web. Um diário de navegação. De certa forma, ele continua nessa dinâmica até hoje. Claro, agora existe conteúdo próprio, opiniões, a participação mais ativa de vocês e toda uma “roupagem jornalística” [detesto essa expressão] a mais. Mas o cerne dele é o mesmo.

* Mas será que isso é “mídia parasita”? Ou melhor, será que eu sou um parasita da grande mídia? Não estou muito preocupado com isso. Acho essas discussões que tentam definir blogs um pouco inúteis, pois existem diários de todos os tipos. Não existe um modelo. Poder ser uma “mídia parasita”, sim. Mas a qual tipo de blog você está se referindo?


Você pode dobrar e fazer um avião com uma folha A4

* Existe uma frase sobre blogs e que, de certa forma, mata todas essas discussões – veio do Gabriel Pillar, na entrevista que fiz com ele. Segundo ele, não existe um único tipo ou um modelo para os blogs. Blog é uma ferramenta que deve ser explorada como apenas mais uma folha de papel A4. Você pode dobrá-la, fazer colagens ou simplesmente escrever um texto nela. Ou ainda transformá-la em um papel timbrado e torná-la um documento oficial de sua empresa. Você é que sabe.

* Da mesma forma, é um blog. Você pode transformá-lo em sua agência de notícias, em seu caderninho de pensamentos, registro de suas viagens, ferramenta de autopromoção de seu livros, canal de comunicação com seus clientes, ferramenta para ganhar dinheiro… Os usos são infinitos. Igual a uma folha A4.


Equipe do BoingBoing registra até hoje o mais interessante de suas ‘perambulações’

* Por isso que é difícil responder a pergunta se os blogs são uma “mídia parasita” ou não. Existem blogs que em certos momentos produzem conteúdo próprio e em outros não. Não importa, nenhuma das duas definições ou dos dois usos denigre um blog. O que interessa é que as necessidades do autor e de seu público sejam atendidas. Afinal de contas, blog é apenas uma ferramenta. Como toda tecnologia, é apenas um meio para se chegar a algum lugar ou suprir uma deficiência.

* Minha sugestão – faça o uso que melhor corresponda às suas necessidades e não se preocupe se o seu blog é uma “mídia parasita” ou não. Só não se esqueça de checar se ele é significativo ou não [lembra da definição de significativo?].

* Seu blog é a sua ferramenta para você chegar a algum lugar. Ou tentar resolver algum problema. Enfim, é a sua folha de papel A4.

Publicado por Tiago Dória, em .
Categoria: blogging. Tags: , ,

Entrevista para o Boletim Inova

entrevista publicada em março de 2007

ENTREVISTA
Doses diárias de cultura, web, tecnologia e mídia

Cansado de lotar a caixa postal dos amigos com links interessantes que encontrava na Web, Tiago Dória, jornalista, webdesigner, e graduando em Gestão em Negócios em Informática, resolveu criar um blog para compartilhar informações sobre sua paixão: cultura, web, tecnologia e mídia. A idéia deu certo. Atualmente seu blog, patrocinado pelo IG, é um sucesso no segmento. Em entrevista ao Inova, Dória fala sobre sua rotina de trabalho, tecnologia e informação e dá dicas de como ganhar credibilidade na blogosfera.

Sara Schuabb

Quando e como surgiu a idéia de criar um blog?
Surgiu em 2003.Eu mandava muitos e-mails para meus amigos sobre as novidades que encontrava na Web. O blog surgiu, portanto, como um “diário de navegação” mesmo, com a idéia de compartilhar e registrar as coisas mais interessantes que encontrava pela Web. De certa forma, ele continua nessa dinâmica até hoje.

Por que escolheu falar sobre cultura web, tecnologia e mídia?
Escolhi falar sobre esses assuntos porque são o que tenho mais afinidade. Estou completando uma graduação na área de Gestão de Negócios em informática pela Fatec (Faculdade de Tecnologia de Estado de São Paulo), então, para mim, são assuntos do dia-a-dia. Aliás, para ser ter uma idéia do quanto me interesso por esses temas, era para ter feito a Fatec antes da faculdade de jornalismo.

Como esse assunto está sendo tratado no Brasil e na imprensa em geral?
O Brasil é um dos poucos países onde o jornalista pode escrever sobre tecnologia sem ter uma formação na área de exatas. Aí, surgem aqueles chavões e erros. Listo alguns: aposta-se em uma cobertura maniqueísta “Microsoft x google” e confunde-se termos, como “hacker” com “cracker”. O primeiro não está ligado a roubo de senhas, mas a conhecimento grande na área de computadores. O segundo sim está ligado a cybercrimes. Temos também um erro bem comum: associar software de código aberto à gratuidade. Necessariamente uma coisa não tem nada a ver com a outra. Existem softwares de código fechado gratuitos e vice-versa.

Como você se organiza para manter o blog; criou algum método de trabalho? Como se pauta?
Existe um método que sigo às vezes: procuro atualizar o blog na parte da manhã e a partir da meia-noite, quando muitos outros blogs e sites de jornais são atualizados com novos assuntos. Dificilmente me pauto, os assuntos surgem a medida que eu vou navegando na rede. Mas procuro me agendar em relação à cobertura de certos eventos.

Quem é seu público-alvo? Você utiliza alguma tática para atraí-lo? Qual é a média de acesso mensal?
Em sua maioria são blogueiros e pessoas que trabalham na área de informática e mídia. Um público jovem. Entre 20 e 35 anos. A tática é atualizar sempre e ter um conteúdo interessante e enfoques diferentes de outros sites. Por meio dos comentários e e-mails, percebo se um assunto está agradando ou não. Os comentários, e-mails e a repercussão em outros blogs são, de certa forma, uma bússola do meu blog. Ele tem em média 105 mil acessos por mês.

O blog pode ser usado para se falar de qualquer tema. Mas o que é preciso para ganhar visibilidade e se tornar uma referência de credibilidade na blogosfera?
Para ganhar credibilidade na Web, você deve seguir o mesmo caminho para ganhar confiança dos amigos. Ser transparente em suas ações e atento aos seus amigos: basta trocar a palavra “amigos” por “leitores”. É mais ou menos essa a relação no blog – uma conversa entre amigos. Ser generoso nas referências a outros sites, atualizar sempre e não usar uma linguagem muito formal também contam muito.

Muitos jornalistas vêem no blog uma saída para desabafar e assumir posições que jamais seriam aceitas por veículos grandes, seja por razões políticas ou empresariais. Você acredita que os blogs têm atraído leitores pelo fato de ser uma ferramenta de comunicação mais democrática, livre de censura e sem fins mercadológicos?
Acredito que sim, mas acho que também pesa a questão dos blogs deixarem o leitor mais próximo de quem está produzindo a informação. A questão da empatia e da linguagem informal e direta também conta muito. Você escreve uma opinião e o leitor vai lá, lê e se identifica. “Nossa! Eu também penso assim!”.

Parece que a revista é o veículo que está mais sendo afetado pelo surgimento da blogosfera. Qual é sua opinião sobre essa migração de público? Por que a revista?
As revistas estão sendo mais afetadas porque o seu principal produto sempre foi vender opinião e novos enfoques sobre assuntos já debatidos. Sem isso a revista não existe. De certa forma, as melhores opiniões e enfoques estão migrando para os blogs. Por que isso? Para você opinar e dar um enfoque diferente a um assunto é preciso ter liberdade para escrever; e os blogs de certa forma proporcionam isso.

Qual é o seu conselho para os jornalistas que sonham em criar um blog respeitado?
Jornalistas devem ter noção de que o seu nome ou o veículo em que trabalham podem não contar muito na blogosfera. Ele não vai começar totalmente do zero, mas em alguns aspectos talvez. Outra preocupação que deve ter é não tratar seu colega (outro blogueiro) como concorrente, mas sim como uma pessoa que pode enriquecer o seu trabalho. A blogosfera, antes de tudo, é uma comunidade.

Confira o blog:

http://z001.ig.com.br/ig/59/32/896736/blig/tiagodoria/

O INOVA é um boletim eletrônico quinzenal sobre tendências de mercado e novos rumos da comunicação na era de convergência tecnológica. Produzido por alunos do 8º semestre de jornalismo do IESB.

Publicado por Tiago Dória, em .
Categoria: entrevistas

Entrevista com Alexandre Inagaki, da InterNey Blogs

A blogosfera brasileira está mais madura. Estreou hoje a InterNey Blogs, uma nova rede brasileira de blogs, que já nasce com um sistema de remuneração. Reúne 21 blogueiros de diferentes regiões do País com a proposta de permitir aos seus integrantes ganharem dinheiro com o que mais gostam de fazer – blogar.

Para isso, a rede trabalhará com um sistema de anúncios que analisa o texto de cada página, de cada blog, e identifica palavras com potencial comercial e, com base nessas palavras-chaves, gera anúncios automaticamente.

O empreendimento é uma iniciativa do analista de sistemas Edney Souza, do blog InterNey, e de Alexandre Inagaki, do premiado Pensar Enlouquece.

Adorei ver blogs, como o Filmes do Chico, um dos meus preferidos sobre cinema, participando do projeto. Espero que, com essa empreitada, consigam fazer um trabalho cada vez mais significativo.

Para complementar as informações, ontem mesmo, bati um papo por email com Alexandre Inagaki. No final, a entrevista foi também sobre jornalismo e blogs em geral ;-)


Edney e Inagaki: blogueiros e empreendedores

1) Como você percebeu a necessidade da criação de um portal de blogs no Brasil?

Blogs, em geral, são exércitos de um homem só. E eu, desde a época em que editava um fanzine virtual, o Spam Zine, já havia constatado que é muito mais bacana escrever fazendo parte de alguma intrépida trupe que seja composta por amigos e gente que eu admiro.

Mas o fato é que a reunião de diversos blogs em um condomínio virtual é um ovo de Colombo, uma maneira de congregar escribas de talento, fazer com que cada blog agregue novos leitores e ao mesmo criar um portal diferenciado de notícias, que será diariamente abastecido por textos inéditos e de qualidade.

2) E como ficará o Gardenal [rede de blogs]? Você saiu de lá?

O Pensar Enlouquece está saindo do Gardenal porque todos os blogs do portal serão abrigados dentro do domínio http://www.interney.net, uma URL fortíssima porque possui PageRank 7 (no Brasil, só portais como UOL e Terra têm esse mesmo ranqueamento), façanha conseguida por um expert em SEO, o Edney Souza.

Além disso, no InterNey Blogs estou tendo a oportunidade de convidar vários blogueiros e jornalistas que admirava há tempos para me fazerem companhia nesta empreitada.

Quanto ao Gardenal, ele continuará sendo um dos melhores coletivos de blogs brasileiros, com gente fina, elegante e sincera como o Pablo Miyazawa, o Alexandre Matias, a Lia Amâncio e o Ubiratan Leal. Mas um dia, quem sabe, espero poder fazer uma joint-venture com eles. :)

3) A remuneração será via publicidade. Como vai funcionar esse sistema de publicidade? Será junto ao Adsense, ao Mercado Livre, BuscaPé etc? Existe a possiblidade de publicidade direta – um anunciante comprar um espaço, um banner, por exemplo?

Vamos trabalhar basicamente com Mercado Livre e Adsense, aproveitando toda a expertise que o Edney Souza desenvolveu a ponto de ter largado seu cargo de Gerente de Sistemas a fim de se dedicar ao seu site em tempo integral, até porque ganhava muito mais com as receitas publicitárias oriundas do Interney.net do que com o emprego convencional que ainda tinha.

A pretensão do InterNey Blogs é aproveitar toda a estrutura criada pelo Edney e conciliá-la com a produção de conteúdo de qualidade, sendo que 80% das receitas arrecadadas pelo portal serão distribuídas entre os blogueiros participantes do nosso portal. Quanto à venda de banners, certamente estaremos abertos a possibilidades.

O mercado publicitário paulatinamente está descobrindo que blogs possuem audiência fiel, qualificada e voltada a nichos específicos, e espero que a criação deste portal represente mais um motivo para que anunciantes percebam que blogs podem dar um retorno muito mais expressivo do que sites tradicionais, a um CPM expressivamente menor.


Blogueiros do InterNey Blogs

4) Qual foi o critério de escolha dos blogs que participam do portal [ou rede de blogs]? Outros blogueiros poderão participar?

Nesta primeira fase, convidei basicamente pessoas que eu admiro. Chamei, por exemplo, o Chico Fireman, que é para mim o melhor crítico cinematográfico da blogosfera. O Nelson Moraes, tremendo escritor cujo superego anabolizado o impede de publicar um livro, apesar de já ter editoras à sua disposição.

O pessoal do Uma Dama Não Comenta, um dos melhores blogs de humor brasileiros. O Pedro Ivo Resende, autor de contos nonsense geniais. E assim por diante. Estamos iniciando atividades com 21 blogs, mas pretendemos dar espaço a muitos outros.

Porém, para a segunda fase do empreendimento, eu e o Edney queremos, além de prosseguir oferecendo hospedagem a blogs que merecem ser melhor reconhecidos, começar a explorar alguns nichos mercadológicos: blogs sobre carros, games, gadgets. Qualquer um que tenha bom texto e que seja especialista em um destes assuntos pode inclusive entrar em contato comigo – aceitamos sugestões. :)

5) Além da remuneração, percebo uma preocupação de vocês em dar espaço a blogueiros com talento, mas, às vezes, um pouco desconhecidos do grande público. Recentemente, Pepe Cervera, blogueiro do 20 minutos, disse que, atualmente, a maior dificuldade dos criadores de conteúdo é obter leitores, ouvintes, conseguir que alguém os encontre. Você concorda com essa afirmação?

Afirmação corretíssima. No dilúvio de informações da Web, ter um blog é quase como jogar uma garrafa no mar em busca de alguém que a encontre. Com o agravante de que, citando a tira publicada pelo Adão Iturrusgarai na Folha de S.Paulo ontem, é bem provável que a garrafa que você porventura achar terá uma mensagem com a frase “enlarge your penis” ou coisa do tipo.


Mais que uma mensagem em uma garrafa ;-)

6) Qual o sistema de publicação de blogs utlizado no InterNey Blogs? E por que o escolheram?

B2evolution. Para justificar a escolha, passo a bola ao nosso expert em assuntos técnicos, Mr. Edney: “Porque ele permite múltiplos blogs numa instalação, enquanto o WordPress necessita de plugins para tanto. Além disso, raramente esses plugins são testados em ambientes de alto tráfego como será o caso do InterNey Blogs. Se o WordPress possuísse múltiplos blogs em sua forma nativa provavelmente acabaria utilizando-o, mas não é o caso”.


Salam Pax: quando o jornalismo e os blogs andam juntos

7) Você falou de uma diferença entre o “jornalismo de blogs” e o “jornalismo de web”. Você acredita que os blogs são “jornalismo”? E mais – o que difere um “blogueiro profissional” de um “blogueiro amador”?

Creio que blogs podem, sim, praticar jornalismo de alta qualidade. Mas preciso fazer aqui uma breve digressão sobre o assunto, lembrando a afirmação da Rebecca Blood [ver post abaixo] de que jornalismo envolve coleta de dados, entrevistas, pesquisas e apurações. Sem os recursos técnicos e financeiros oferecidos pela mídia tradicional, um internauta dificilmente possuirá estrutura para fazer a apuração dos fatos, imprescindível para o bom jornalismo.

Aqui no Brasil, ainda são raros os casos de blogueiros que produzem conteúdo inédito jornalístico, com entrevistas e matérias elaboradas pelos mesmos. Na maior parte das vezes, a blogosfera brasileira funciona como um ombudsman da imprensa, reverberando, filtrando e comentando o que foi produzido por jornais, revistas e portais.

Por outro lado, a blogosfera é um ambiente desvinculado dos interesses ideológicos de uma empresa jornalística, dando a um jornalista a possibilidade de elaborar suas próprias pautas e escrever sem preocupações com leads, pirâmides invertidas ou deadlines.

Enquanto há toda uma plêiade de blogs que se limitam a copiar e colar textos que encontraram em qualquer lugar, sem se preocupar com a veracidade das informações ou um mínimo de checagem de dados, é possível também encontrar excelentes blogs especializados nos mais diversos assuntos (divulgação científica (http://rodadeciencia.blogspot.com), cinema (http://www.ligadosblogues.blogspot.com), fotografia, quadrinhos). Trata-se, pois, de um admirável mundo novo no qual você já não precisa mais depender de um jornal, um canal de TV ou uma rádio para encontrar as informações que deseja saber.

Pode, graças à blogosfera, ler relatos de israelitas e libaneses sobre a guerra. Encontrou, por intermédio do blog de Salam Pax, mais informações sobre o cotidiano no Iraque durante a ocupação norte-americana do que em qualquer site ou jornal. Leu relatos sobre o que aconteceu em São Paulo no dia dos ataques do PCC, ou como estava New York em 11 de setembro de 2001.

Na folha em branco quase infinita que é a blogosfera, quem tiver um mínimo de paciência e capacidade de discernimento descobrirá rapidamente que em blogs é possível encontrar de tudo, inclusive bons jornalistas, escritores, fotógrafos e ilustradores amadores que, por um motivo e outro, estão produzindo conteúdo de excelente qualidade desvinculados dos veículos tradicionais de comunicação.

Sobre a questão da profissionalização, a criação do InterNey Blogs é uma tentativa de começar a remunerar blogueiros no Brasil por sua produção. A julgar pela experiência anterior do Edney com seu site pessoal, temos bons motivos para crermos que esse modelo será economicamente viável.

Se formos bem sucedidos criaremos um ótimo precedente, possibilitando a blogueiros recursos que, naturalmente, resultarão em melhoras na qualidade e quantidade dos posts publicados.


Pode ser blogueira, mas sem falar sobre política!

8 ) Aproveitando a pergunta acima. De uns dois anos para cá, alguns colunistas de jornais estão virando blogueiros e vice-versa. O que você acredita que difere o trabalho de um blogueiro de um colunista de jornal?

Recentemente todos os portais e sites de jornais recorreram ao uso de blogs, essa ferramenta tão hypada ultimamente. Mas não é difícil constatar que os “blogs” hospedados em portais não conversam efetivamente com outros blogs, uma vez que só linkam ou “trackbackam” notícias publicadas no próprio portal que lhes oferece hosting.

Não interagem efetivamente com a blogosfera, assemelhando-se mais a colunas tradicionais meramente travestidas de blogs, até porque não possuem a liberdade que a ferramenta blog deveria lhes oferecer. Além disso, são tolhidos no tema dos posts (vide o caso da Soninha Francine, que foi proibida de escrever sobre política em seu blog na Folha Online). É importante ressaltar que no InterNey Blogs, os autores terão total liberdade de criação – têm seus templates próprios e escrevem sobre qualquer tema que lhes vier à mente.

Ainda tergiversando sobre as diferenças entre blogueiros e colunistas de jornais, eis uma diferença fundamental: nos blogs, a repercussão de um texto surge pouquíssimo tempo após sua publicação, e vêm na forma de comentários e e-mails recebidos.

Blogueiros interagem com seus leitores, escrevem posts a partir dos feedbacks recebidos, deixam comentários nos blogs daqueles que visitaram sua página. O tempo de resposta de um colunista de jornal obviamente é muito mais pausado e limitado pelas restrições impostas pelo veículo em que escreve.


Filmes do Chico, um dos melhores do País

9) Como você acredita que serão os blogs daqui a 5 anos?

Com a crescente pluralização da produção de conteúdo, a união de blogs em torno de coletivos como Gardenal, Insanus, Verbeat e InterNey Blogs será uma tendência crescente. RSS, ou o que quer que seja que surja em seu lugar como agregador de conteúdo, será uma ferramenta ainda mais imprescindível. Blogs especializados em nichos cada vez mais específicos surgirão aos montes.

A blogosfera já estará definitivamente consolidada como mídia, e muitos dos blogueiros revelados na Web serão absorvidos por jornais, revistas e portais tradicionais.

Penso, no entanto, que a paulatina popularização da banda larga e os avanços nas técnicas de exibição de vídeos em streaming farão com que os videoblogs tornem-se o novo hype na Web, e isso em um prazo muito menor do que 5 anos. Contudo, assim como a TV não acabou com os jornais, creio convictamente que blogs e videoblogs conviverão sem maiores problemas.

Publicado por Tiago Dória, em .
Categoria: blogging, entrevistas. Tags: , ,

Web 2.0 sob ataque

* Nunca vi o termo Web 2.0 ser tão criticado como neste final de semana. O ‘pai das críticas’ foi um post de Peter Rip , sócio da Crosslink Capital, uma empresa de investimentos no Vale do Silício. Segundo ele – já declarando um fim para o termo -, a Web 2.0 não atendeu as expectativas. Virou “mainstream” e não traz mais inovações.

* O que é até verdade. Ultimamente não surgiu nada de interessante na chamada Web 2.0. Parece que tudo tem sido feito no automático – mais uma rede social, mais um clone do Digg, mais um serviço de vídeos à-la-YouTube.

* Mas acredito que esse tipo de reação [post] tenha um motivo. Nunca o termo Web 2.0 foi tão usado como rótulo. Hoje qualquer site e empresa se autoproclama Web 2.0. Coloca alguma coisa em Ajax, manda o leitor enviar matéria, monta um Digg ali, pronto! É Web 2.0. Parece um selo de qualidade.

* Sem contar o tom messiânico que o termo vem adquirindo nos últimos tempos – Web 2.0 é “o renascimento do homem”, “vai ter dinheiro para todo mundo”… só falta a Web 2.0 inventar “sorvete que não derrete”.

* Conforme já publiquei em um artigo no Jornal de Debates, para mim, Web 2.0 é uma evolução natural da web. Já esperada por alguns especialistas como o criador dela mesma – Tim Berners-Lee. Não houve revolução. A Web, as suas tecnologias e os seus conceitos não mudaram. É a mesma de mil novecentos e pouco.

* Se mudou alguma coisa foi a percepção e a postura de algumas pessoas perante a Web, que agora vêem a rede como uma ferramenta para conectar pessoas e compartilhar conhecimento. E que deve haver uma preocupação, ou melhor, um respeito com o usuário.

* Esse negócio de conceitos de poder ao usuário, descentralização, web como plataforma de serviços, conhecimento coletivo, wikis, web semântica e reaproveitamento de códigos sempre existiram. Talvez algumas coisas, como a própria “web semântica”, estão sendo reavivadas.

* Ou ainda – estão surgindo novos usos para “velhas” tecnologias – o flash sendo usado cada vez mais para criar players de vídeos [ok! isso não é tão novo, mas agora é quase regra] ou o Javascript, linguagem de programação que existe desde 1995, sendo trabalhada de outra forma, resultando no Ajax.


Berners-Lee – de saco cheio da Web 2.0

* No entanto, eu gosto desse debate todo e dessas reações em blogs. Por um lado, esse negócio de Web 2.0 confunde cada vez mais a cabeça de todo mundo.

* Mas por outro é uma espécie de aviso para gerentes e desenvolvedores de sites – web é participação, respeito ao usuário e restringir o mínimo possível a experiência dele com a rede. A partir da discussão sobre Web 2.0, estão surgindo muitos debates bacanas sobre investimentos na web e o perfil do profissional que trabalha com a rede.

* Não dá para negar que a Web, em sua superfície, não é a mesma de 10 atrás – é só comparar o quanto era difícil para assistir e fazer o upload de um vídeo. Com o YouTube, isso mudou.

* Mas daí achar que tudo isso é uma revolução, que veio destruir tudo que o existia antes e que tudo é novo e diferente é outra história. Foi a postura de algumas pessoas perante a rede e não a web em si que mudou.

Publicado por Tiago Dória, em 30 de março de 2007 (sexta-feira).
Categoria: web2.0

Revision3: Vamos para as redes de videocasts?

* A Revision3 está com um novo videocast, o XLR8RTV, sobre música eletrônica e ‘underground’. Na verdade, o programa é uma versão em vídeo de uma revista de mesmo nome. O 1º videocast conta com a participação de um grupo francês que, pelo visto, faz música com sons de vídeos-games.

* Coloquei essa informação no post, apenas para ter uma desculpa para falar sobre a Revision3, que é uma espécie de rede de videocasts, que eu gosto para caramba. Sim, os caras lá fora já estão formando esse tipo de rede/produtora. Foi criada por Jay Adelson e Kevin Rose, todos do site Digg.


Alex Albrecht e Kevin Rose: Quase um buteco na web

* O carro-chefe da rede é o Diggnation, onde são comentadas as notícias de mais destaque no Digg durante a semana. Mas tudo com uma postura informal. Para se ter uma idéia, Kevin Rose e Alex Albrecht apresentam o videocast tomando uma breja.

* Outro programa que eu gosto bastante é o Ctrl Alt Chicken, sobre culinária. O nome do videocast, por si só, é ótimo. Imagina o que acontece quando um cara geek, com um laptop na mesa e que não sabe cozinhar, se junta com uma amiga para tentar fazer umas receitas? =)


Pareço com ele na cozinha…

* O que eu acho mais bacana na Revision3 é que todos os videocasts absorvem bem o espírito da cultura geek – aquele negócio de informalidade, camisetas com estampas inusitadas, alusões à tecnologia. São divertidos. Não são sisudos. E não deixam de ser informativos. Têm bem a linguagem da web.

* Foge bem daquele esquema de site com vídeo de jornalista anunciando notícias na bancada, que, falando sério, nunca teve a ver com a linguagem web. Foi ou ainda é apenas uma tentativa sem sucesso de querer repertir o formato do telejornalismo [TV] na web. Não é à toa que não dá muito certo.

* Aliás, acho que alguns sites de notícias ainda insistem nesse formato… Bom, deixa pra lá, eles têm bastante dinheiro para queimar.

* Se você gostou do assunto, em outubro, eu fiz uma seleção de vários videocasts ;-)

Publicado por Tiago Dória, em .
Categoria: videocast

Eyetrack 07: usuário de internet lê mais

O Poynter Institute publicou o EyeTrack07, um estudo anual que existe desde 2003 e mostra como se comporta o usuário de internet com a interface de um site ou jornal impresso. As conclusões são obtidas por meio do monitoramento do movimento dos olhos das pessoas que participam da pesquisa.

* Lembro que, em 2004, esse estudo revelou que a barra de menu de um site à esquerda não é tão eficiente quando colocada à direita. Essa conclusão motivou o Blogger a colocar todas as barras laterais dos ‘templates prontos’ de seus blogs à direita.

* Pois bem, esse estudo de 2007 mostra algumas coisas. A maioria dos leitores online tem uma tendência maior de ler um texto até final. Nos tablóides [impresso], por exemplo, a quantidade que lê até o final uma matéria é menor [usuários de internet lêem 77% de uma matéria, enquanto o de tablóide lê apenas 57%]

* Cai um pouco aquele mito de que usuário de internet tem pouca atenção ou não tem paciência para ler um texto até o final.

* Outra conclusão [meio óbvia] é de que fotos de pessoas ou feitas em ambientes externos ganham mais atenção do leitor online do que imagens feitas em estúdio [ambientes fechados].


O site da Veja tem uma ótima seção de perguntas e respostas

* O uso de seções de “Perguntas e Respostas” e “linhas do tempo” ajuda o leitor online a compreender melhor uma matéria. Mas quem usa isso? Pouquíssimos sites de notícias.

* Elementos de navegação, como barras, atraem mais a atenção do leitor online do que fotos e títulos grandes.

* E os usuários de internet lêem de forma metódica – normal – [50%] e scaneando [50%] – vendo somente os títulos, as primeiras palavras dos parágrafos e fotos.

* As principais conclusões do estudo estão aqui. [em formato pdf]

Foto do Flickr do thornj

Publicado por Tiago Dória, em .
Categoria: Uncategorized

O hype do Twitter sendo dissecado

* Vocês devem ter percebido em alguns blogs gringos que o Twitter está ‘bombando’ lá fora. Não se fala em outra coisa. Conforme eu comentei no domingo, é uma rede social onde você escreve para os outros sobre o que está fazendo neste exato momento.

* Talvez o grande lance seja a possiblidade de receber as atualizações dos perfis de amigos [via SMS, no celular] e saber assim o que eles estão fazendo naquele exato momento.

Existe gente chamando o Twitter de “microblog” – já que são posts pequenos -, ou ainda de “RSS para quem não tem nada a dizer” e até de a próxima geração de blogs.

Aqui, no Brasil, pelo visto, o pessoal não se empolgou muito ainda. Também… para quem já teve o “chat da Katilce” no Orkut, não vê muita graça nisso ;-)

Interessantes são as análises que estão saindo nos blogs.

* Rex Hammock aproveita as críticas ao Twitter para comentar um aspecto da cultura americana. Segundo ele, o americano sempre olha para uma nova tecnologia e logo pergunta: Qual o plano de negócios disso?. No Japão, a visão é diferente. Pergunta-se logo de cara – Como posso brincar [se divertir] com isso? O lance do Twitter, por enquanto, é isso – diversão.

* Steve Rubel elogia e diz que a principal característica do serviço é a facilidade em publicar conteúdo. Os sistemas de publicação de blogs já fazem isso, mas o Twitter é rápido. É feito para publicar textos pequenos.

* Ainda não dá para ter uma idéia clara sobre a ferramenta. Mas pelo que dá para perceber, o grande lance é esse mesmo – a possibilidade de poder publicar rapidamente uma informação, como um SMS, um scrap do Orkut. É informal. A interface ajuda – é bacana. Além da possibilidade de somente algumas pessoas receberem as suas atualizações.

Imagino o Twitter para fazer um ‘liveblogging’ de um evento. Você vai enviando e digitando rapidamente os textos, que, nestes casos de cobertura, são pequenos mesmos, mas constantes.

* Para quem se interessar em testar, o meu perfil está aqui.

Publicado por Tiago Dória, em 14 de março de 2007 (Quarta-feira).
Categoria: blogging, midia, twitter

Entrevista com Daniela Bertocchi, do Intermezzo


Bertocchi na defesa de sua tese de mestrado em fevereiro

Considerada uma das tecnologias de comunicação mais significativas depois da invenção da imprensa, os blogs completam, oficialmente, 10 anos em abril. Desde o começo do ano, diversos artigos estão sendo publicados sobre o assunto. Entre eles, o do professor José Luis Orihuela, que saiu no ElPais.

Para comentar sobre esse e outros assuntos relacionados à blogosfera, entrevistei Daniela Bertocchi, jornalista e mestre em Ciberjornalismo pela Universidade do Minho (UM), em Braga [Portugal], onde também ministra aulas. Daniela mantém e participa de diversos blogs e projetos online, aqui, no Brasil, e em Portugal. Um dos mais interessantes e conhecidos é o blog coletivo Intermezzo, um dos pioneiros sobre mídia no Brasil.

1) Qual a avaliação que você faz sobre esses 10 anos de blogosfera?

Em dez anos muita coisa mudou. No começo, ninguém sabia o que era blog. Engraçado observar as matérias sobre o assunto publicadas àquela época nos meios de comunicação social. Todas começavam explicando o que era um blog, que a palavra surgia a partir de “web” + “log” e por aí afora.

Hoje, a estória é outra. O conceito disseminou-se. A cada segundo um blog é criado e isso não é uma frase de impacto, são as estatísticas recentes, de 2006. Os blogs deixam, cada vez mais, de estar à margem das mais importantes discussões políticas, econômicas, culturais etc. e, por muitas vezes, chegam a ser o seu centro.

Mas gostaria de voltar ao que disse: o conceito de blog. Porque, no fundo, é isso mesmo. O blog pode ser usado para qualquer coisa: receitas culinárias, diário pessoal, publicação de notícias. Serve à comunicação, à relação interpessoal, à criação de comunidades.

Pessoas, empresas e instituições se apropriaram desta idéia para se expressarem publicamente na rede, consoante os seus interesses. Isso é algo a ser considerado. Houve sim um alargamento do espaço informativo e opinativo com os blogs nestes dez anos. O mesmo está ocorrendo com os podcasts.


Dave Winer, um dos pioneiros nos blogs

É como o caso do RSS também. Dave Winer, um dos mais antigos blogueiros norte-americanos (senão o mais), colunista do DaveNet desde 1994, simplificou a versão RSS 0.9 que havia sido desenvolvida pela Netscape em 1999 e a popularizou entre os blogueiros. A idéia poderia ter morrido a meio do caminho, nunca ter vingado.

Mas em 2004 a versão 2.0 do RSS, finalizada pela empresa de Winer, foi adotada pelo The New York Times. A coisa, enfim, foi ganhando fôlego, pouco a pouco.

O que quero dizer, no fundo, é que, nesta análise de 2007 como o marco histórico dos blogs, mas interessante que colocar o foco na tecnologia em si (em suas facilidades de publicação) seria perceber que os blogs tornaram-se um “fenômeno” porque muitas e diferentes pessoas espalhadas pelo planeta compraram a idéia.

Os blogs participaram da estória do 11 de Setembro, 11 de Março, ataques de Londres, Guerra do Iraque, Tsunami; de eleições, cimeiras etc. Criam uma rede de narrativas e opiniões individuais e coletivas. E isso aconteceu (somente) em dez anos.


O Engadget virou loja?

2) Você acredita que, nesse meio tempo, muitos blogs – Engadget, BoingBoing, Gizmodo etc. – estão se tornando marcas ["grifes jornalísticas"] como as de uma revista ou jornal consagrados?

Sim. Ninguém está nesta vida a passeio. Estão a construir suas “marcas” a partir das mesmas estratégias de revistas e jornais consagrados: credibilidade, autoridade, respeitabilidade, rapidez, produtividade (capacidade de fornecer informaçõs em quantidade e qualidade). E estão a conseguir.


Blog coletivo Intermezzo

3) Aqui, no Brasil, existe o costume de falar “blogosfera brasileira” ou ainda “serviço voltado para blogueiros brasileiros”. Você não acha esse tratamento um pouco errado? O correto não seria “blogosfera em português”, pois o que separa os blogs não são as diferenças geográficas, mas sim as de idiomas?

Muito boa essa pergunta, Tiago. Curioso que acho que não conseguiria responder a essa questão com propriedade não fosse eu estar em Portugal há quase 3 anos e conviver não apenas com portugueses, mas com cabo-verdianos, angolanos etc.

Tenho duas coisas a dizer. A primeira: o erro, na verdade, não é esse; o equívoco é achar que o que separa os blogs é a fronteira do idioma. A segunda: além disso, os motivos comerciais – imperativos no mundo de hoje – justificam o uso da expressão “blogosfera brasileira”. Explico a seguir cada uma das minhas suspeitas.

Em primeiro lugar, o que separa os blogs é a fronteira cultural. E o idioma está incluído na cultura, junto com uma data de outros componentes bem complexos (como “identidade”, por exemplo). Ocorre que somos, hoje, 210 milhões de falantes da Língua Portuguesa em 8 países do mundo.

Trata-se do que poderíamos chamar de um “espaço multicontinental” de mesma língua. Todos os que falam o português são lusófonos, obviamente. Assim, todos os blogs em português – criados e mantidos ou no Timor, ou em Cabo Verde ou em Angola ou noutros sítios – poderiam, por defeito, integrar-se numa blogosfera em português.

E por que não a formam? Por que não conseguimos levar essa expressão adiante? Porque não partilhamos a mesma cultura, a mesma realidade, a mesma identidade, o mesmo modo de expressão, os mesmos problemas cotidianos.


Bertocchi: “o que separa os blogs é a fronteira cultural”

Não existe uma coesão entre este “nós” lusófono. Logo, não existe uma coesão entre estes blogs. (Quando falo em coesão, falo em força de atração, naquilo que os une).

A blogosfera de Portugal, por exemplo, possui características muito diferentes da brasileira; os blogs aqui tendem a ser super opinativos, analíticos e teóricos (poucos são informativos) em comparação com os do Brasil.

Falar em “blogosfera em português” só seria possível se desconsiderássemos completamente essas grandes diferenças culturais e optássemos por considerar apenas a questão linguística da coisa. Ou seja, falam a mesma língua e pertencem à mesma blogosfera. E nada mais. O problema é que o fato de falar um mesmo idioma não cria um sentimento de comunidade. E os blogs, como sabemos, alimentam-se deste sentimento.

Em segundo lugar, faz todo o sentido falar em “blogosfera brasileira” ou “serviço voltado para blogueiros brasileiros” quando pensamos que o Brasil é um mercado gigante e promissor. Daqueles 210 milhões luso-falantes que citei, nós, os brasileiros, somos 170 milhões. Além disso, estamos muito à frente em questões de acesso a Internet em comparação com Angola, Timor ou Moçambique, por exemplo.

Resumindo, acho perfeitamente compreensível o uso da expressão; embora, naturalmente, eu tivesse muito mais gosto em poder usar a expressão “blogosfera lusófona”.


Elpais e os seus blogs

4) De uns dois anos para cá, tem acontecido algo que sempre foi comentado no Intermezzo – colunistas de grandes jornais passaram a atualizar blogs. A chamada “grande mídia” está absorvendo os blogs. Como você vê tudo isso? Esses “blogs de jornalistas” são realmente espaços de conversações? E mais – o que difere o trabalho de um colunista de jornal do de um blogueiro?

Os media mastigaram e engoliram a idéia dos blogs depois que esta idéia já tinha vingado fora do círculo dos media e já parecia apresentar apelo comercial o suficiente para ser viabilizada por eles.

Os primeiros blogs são de 1997, como toda a gente sabe. Em 2002, um blog era criado a cada 5,8 segundos. Isso nunca mais parou. Mas os jornais começaram a criar blogs muitos anos depois disso tudo, já a partir de 2003 e 2004. Mas muitos só em 2005.

Fiz um levantamento dos blogs do Brasil, Portugal e Espanha em Setembro de 2006 para o meu mestrado. Alguns dados, para termos uma noção do que falo. O espanhol El Mundo, por exemplo, entre 2004 e 2006 lançou 34 blogs. Houve (e ainda há) por lá de tudo e para todos os gostos: blog de jornalistas, outros temáticos e ainda alguns criados a propósito de eventos pontuais (“Un español en el Katrina”; por exemplo). A atualização de muitos não é constante.


Un español en el Katrina

O El Pais começou em 2005 e, até a data que apurei, tinha 11 blogs – curiosamente, 3 literários. Em Portugal, o Público passa à frente de outros diários generalistas: são, ao todo, 11 blogs e, neste rol, destaca-se o “O blog do Provedor dos Leitores” (ombudsman do jornal).

No Brasil, o jornal O Globo, entre 2003 e 2006, lançou 39 blogs. O jornal não efetua uma divisão aparente entre blogues de colunistas e os temáticos (ou de outra natureza) mantidos pelo portal Globo.com, mas todos os links para blogs do portal lá estão.

O número de blogs é muito elevado nos meios de comunicação com presença na web. Respeitadas as devidas diferenças editoriais e culturais, a impressão com a qual fico é a de que era preciso “entrar na onda”.

Mas entraram na onda sem se deixarem contaminar pela cultura digital. Os jornalistas criam e mantêm os seus blogs nos “big media” seguindo mais a lógica da cultura do jornal impresso. Ou seja, mantêm, de fato, colunas.

Neste sentido, para muitos meios, blog foi apenas uma maquilagem nova para uma velha idéia: a idéia de se fazer uma coluna de opinião. Logo, não são espaços de conversação; não fogem à lógica de comunicação unidirecional.


11 de setembro – o “BigBang” dos blogs

5) Quando eu comecei, em 2003, e acredito quando você começou a blogar em 2001, era muito comum os blogs serem tratados como “diários de adolescentes”. Blogs mais sérios eram vistos um pouco como estranhos no ninho. Alguns até com baixa aceitação. Você não acredita que hoje está acontecendo o contrário? Parece que todo blog tem uma certa necessidade de ser sério, produzir conteúdo noticioso e próprio, e blogs descompromissados ou em formato de diário ficam um pouco de lado, não são mais uma referência?

No Brasil, de fato começaram como uma atividade juvenil, lúdica, descompromissada. E, depois, criou-se essa necessidade de seriedade, compromisso. E penso que isso seja uma influência direta dos blogs de jornalistas sérios criados nos meios de comunicação social presentes na rede em relação ao restante dos blogs.

Parece que agora ouço “blogar agora é importante, coisa de gente séria”. O fato é que não fui nem mais nem menos séria do que costumo ser ao criar a minha conta no Blogger em 2001, antes de tudo isso ser “coisa de gente séria”.

Em Portugal, entretanto, o movimento dos blogs já começou mais sisudo. Um marco na história da blogosfera daqui é a criação do blog “Abrupto”, de Pacheco Pereira, um comentador político, formado em filosofia, um homem que já foi deputado; ou seja, não dá para falar, para este caso, que blog foi coisa de adolescente. Na Espanha, para terminar com um terceiro exemplo, vejo uma blogosfera feita maioritariamente por gente que já desde há tempos está familiarizada com a rede e que gosta de manter um nível de qualidade nas postagens.

Peguei dois exemplos para comparar com o Brasil, mas poderíamos ficar a vida aqui a fazer comparações. Daí podemos deduzir também que os dez anos não foram iguais em vários cantos do planeta e que a percepção de que as pessoas têm a respeito do que seja e para que serve um blog pode alterar-se bruscamente de sociedade para sociedade. Não dá para generalizar.

6) Como você acredita que serão os blogs daqui a 5 anos?

Os bons ficarão melhores. Os ruins continuarão engrossando o lixo da rede.

7) Ah, só por curiosidade – você se lembra do primeiro blog que visitou? ;)

Como eu disse no início desta entrevista, há dez anos ninguém sabia o que era blog. Se naquela época, lá pelos idos de 1997, eu me deparei com algum pela web, certamente que não o identifiquei como tal. Tenho somente um registro emocional em minha memória. Lembro-me, por exemplo, de em 2001 ver o blog Jornalismo e Comunicação e pensar: “putz, é algo assim que quero fazer”. Não cheguei completamente lá, mas sigo tentando com o blog coletivo Intermezzo. Sigo, enfim, blogando.

Publicado por Tiago Dória, em 12 de março de 2007 (Segunda-feira).
Categoria: blogging, entrevistas. Tags: , ,