
Tiago: ‘Para cada blog de política nos EUA, temos um de literatura ou poesia aqui’
E continuam as entrevistas com o pessoal da blogosfera no Brasil. Desta vez, bati um papo com Tiago Casagrande, um dos criadores da Verbeat, que tem como anexo a Verbeat Blogs, uma rede ou ‘condomínio’ de blogueiros brasileiros.
O que eu gosto na Verbeat é que ela reúne diversos blogueiros ligados a literatura e poesia. Aliás, acredito que os melhores textos da blogosfera brasileira estão lá. E acredito também que essa seja a última entrevista do ano. Para fechar com chave de ouro ;-)
1) Quais as diferenças entre os blogs e as mídias anteriores? Se é que elas existem?
O inovador – e até mesmo o revolucionário – nos blogs é a liberação do pólo emissor da comunicação dentro de uma mídia de longo alcance. Na verdade essa é uma característica da internet, que é uma rede aberta a quem puder e quiser fazê-la; o blog surgiu como ferramenta desse conceito, eliminando barreiras de programação ao leigo e facilitando as tarefas de publicação de conteúdo online.
Isso aumenta o número de fontes geradoras de conteúdo e democratiza a informação. Hoje, o grande produtor dessa mídia é o todo do público que bloga – a soma de suas vozes individuais, ecoando e replicando até que a mensagem se esgote.
Outra característica que vejo retomada e amplificada é a conversação um-a-um. Nos media tradicionais, largo alcance e intimidade são objetivos incompatíveis; enquanto que, nos blogs, eu falo para você e você pode me responder assim que desejar. Esse feedback incorporado em tempo real ao processo de comunicação é brilhante, e reestabelece o elo perdido entre emissor e receptor.
Ou seja: em certos aspectos, as diferenças são tão notáveis – e ainda lembremos da facilidade de acesso ao blog, em comparação à produção em qualquer outro canal – que o blog custou a ser visto de maneira correta: como mídia, e não como produto. Todos lembramos da primeira onda, com os jornais televisivos noturnos retratando os blogs como “os novos diarinhos virtuais” ou uma “febre adolescente”…

2) Como surgiu a Verbeat? Como foi juntar todo esse pessoal? Acredito que a Verbeat seja a rede de blogs mais numerosa no Brasil.
Eu e Leandro Gejfinbein criamos a Verbeat como o veículo online dos nossos projetos. Um deles é a Verbeat Blogs, que veio na busca de um espaço próprio para blogar e fomentar a mídia, além de melhor controle sobre o conteúdo. Ao invés de pensar num coletivo blogueiro, preferimos a noção de condomínio: não são características comuns que nos agrupam, mas o local onde estamos. E mantendo todas as nossas diferenças.
Dentro dessa concepção é que fomos crescendo: começamos como três amigos e fomos captando blogs ao redor, basicamente de leitores (como a Olivia e o Marco) e de blogueiros que admiramos (como o Milton e o Flavio, só pra dar dois exemplos – admiração tem de sobra pra um monte de gente.)
Aos poucos, uns moradores indicaram outros, e assim por diante (e teve até o caso de pressão da própria blogosfera, que prática e felizmente nos empurrou o popstar Biajoni). Nosso único critério foi o da qualidade – do texto e da pessoa, e a diversidade.
Nesse ano seguramos um pouco a expansão, mas em 2007 o número deverá voltar a crescer, especialmente com blogs de temática definida. Outros projetos em comunicação e contemporaneidade devem sair da Verbeat, também.

Blogueiros da Verbeat: Ler refresca!
3) Qual sistema de publicação de blogs vocês usam na Verbeat? E por que o escolheram?
Estamos rodando em Movable Type. Foi nossa escolha por ser um sistema que acreditávamos conseguir instalar no servidor; tinha uma boa documentação. Possuir uma base de usuários já formada também influenciou. Acabamos nos acostumando, decoramos algumas tags, e até hoje tivemos poucos problemas. Principalmente após a versão 3, que faz um bom trabalho contra spammers.
4) Recentemente, a Justiça da Califórnia, nos EUA, decidiu que os blogueiros não responderão mais judicialmente por comentários feitos por leitores na caixa de comentários do blog. Qual a repercussão dessa decisão, levando em conta que o blog brasileiro Imprensa Marrom foi condenado por um comentário publicado na caixa de comentários? Você acha que isso pode aumentar os flamewars?
A decisão da justiça norte-americana não apenas dá amparo ao blogueiro, mas reestabelece a cidadania por confirmar uma ordem lógica: em caso de ofensa, responsabilize-se o autor da ofensa. É preciso, e parece que o judiciário brasileiro ainda não compreendeu isso, que se diferencie o trabalho autoral (o post) da área de conversação (a caixa de comentários). Imputar penalidades ao blogueiro pelo que entra na sua comment box é proteger aquele que ofende.
No caso do Imprensa Marrom, mal comparando, é como se assaltassem um boteco e a polícia prendesse o dono do estabelecimento. E o caso cheira mal: por que jamais foi solicitado ao blogueiro que retirasse do sistema o comentário ofensivo? A saída mais simples, em tempos de incentivo aos tribunais de conciliação, não foi sequer solicitada.
De qualquer modo, não acho que a decisão faça aumentar os flamewars. Eles existem porque há pessoas de algum modo interessadas neles; se você não quer alguém lhe xingando no seu blog, expulse ele de lá. Por ser uma micromídia pessoal, as regras podem ser definidas pelo próprio autor.
Na Verbeat Blogs, quem sofre de tempos em tempos com trolls é a Leila, que fala bastante (e com propriedade) sobre política internacional. Ela já tem experiência, lida bem com isso e tem total domínio nas decisões sobre seu blog, mas sabe que se dependesse de mim, já teria barrado o IP de qualquer um que partisse pra ofensa pessoal sistemática. Quer xingar, tá nervoso? Abre um blog. Não na Verbeat, obrigado.

Matt: ‘blogueiros devem seguir as normas éticas das velhas mídias’
5) Em uma entrevista ao jornal Cinco Dias, Matt Mullenweg, criador do WordPress, disse que os blogs devem pelo menos seguir as normas éticas das velhas mídias. Você concorda com essa visão?
Talvez seja uma boa idéia, mas e que tal as velhas mídias seguirem suas próprias normas éticas também? Se os blogs como uma forma de jornalismo (e jornalismo é função, além de profissão) encontraram espaço, é porque a imprensa tradicional tem falhado, inclusive nesse aspecto. O jornalismo está repensando sua ética, e os blogs motivaram em parte essa discussão. E isso é muito salutar – especialmente para o público.
Pessoalmente, acho que os blogueiros devem valer-se principalmente de sua ética pessoal ou de grupo, e trabalhar com transparência nesse sentido – algo que freqüentemente acontece, já que autores são amadores, ou seja, o fazem por paixão. Algum cuidado ao escrever, lisura com o texto, honestidade, e pronto. Um blog é seu autor, não um conselho editorial; se fosse, não seria blog. Se o autor cometer um deslize ético, será julgado pela própria comunidade. Isso já ocorre.

6) Vocês publicaram neste ano uma pesquisa sobre os blogs no Brasil. Quais são as principais características da blogosfera brasileira? E mais – o que você acredita que difere a blogosfera brasileira da blogosfera de outras países? Existe alguma característica que é mais evidente?
O que a pesquisa detectou, em primeiro lugar, é que blogs são páginas autorais e pessoais acima de tudo; o blogueiro não abre mão do olhar opinativo sobre quaisquer fatos, pelo contrário – está feliz por ter achado um canal de longo alcance para dizer “eu penso que”. Isso reflete-se no fato de que mais de 75% dos autores identificam-se com nome ou apelido “real” (o mesmo fora da internet) em sua página.
Surpreendeu-nos ver a multiplicidade de facetas da mídia. Se por um lado pudemos ver que os blogs estão firmando-se como uma fonte complementar de notícias, procurada para obter diferentes visões dos assuntos – inclusive, mais de 60% afirmaram considerar o blog como uma espécie de imprensa alternativa -, 80% dos pesquisados afirmaram que lêem blogs por diversão e entretenimento. Isso não significa que apenas blogs de humor tenham audiência – mas que, quando a notícia torna-se um bate-papo interessante, é diversão.
O que nos diferencia da blogosfera de outros países é que temos menos blogs temáticos (focados num determinado assunto) do que norte-americanos e ingleses, aparentemente não nos interessamos pelos trocados da lincania patrocinada (já que o uso do Google AdSense e afins é muito pequeno nos blogs daqui) e, também, aprendemos a canalizar melhor a produção cultural/artística para essa nova mídia.
É apenas uma estimativa por alto, mas acho que para cada blog de política nos EUA, temos um de literatura ou poesia aqui. E assim como alguns analistas políticos, lá, estão saindo dos blogs e indo para a grande mídia, temos autores usando a blogosfera como catapulta para as livrarias. Nossa Olivia é um exemplo.

Marco Brasil, Tiago, Olívia Maia, Leandro Gejfin e Renato K
7) Como você acredita que serão os blogs daqui a 5 anos?
Ferramentas de conectividade geográfica, novas gerações da web e o crescimento de acesso móvel e em banda larga tendem a deixar os blogs mais velozes e integrados ao nosso dia-a-dia. Blogs serão um espaço estabelecido e híbrido entre notícia, repercussão e debate. Poucos blogs serão campeões de audiência, mas isso importará pouco.
Leitores de RSS em celulares ou dispositivos como o iPod deverão levar o texto para o bolso do público, que poderá também gerar conteúdo por ele – o liveblogging acontecerá corriqueiramente. Podcasts e videoblogs são variantes que acompanharão a evolução da mídia, mas serão secundários dentro da perspectiva blog; o texto não será abandonado. A palavra é o grande catalisador da blogosfera, e é por causa dela que os blogs podem ser fascinantes.

Foto: Steve Rubel
Um seleto grupo de blogueiros americanos [Techcrunch, Steve Rubel, GigaOM...] teve hoje um encontro com Bill Gates, como parte de um futuro evento chamado Mix 07. Os blogueiros viajaram a convite da Microsoft, com tudo pago. Não faltaram perguntas.
* Quando questionado sobre em que investiria se fosse um empreendedor iniciante, Gates não pensou duas vezes. Nada de Web 2.0. Inteligência artificial, biologia e energia. Sim, energia, uma das maiores preocupações da Google atualmente.
* Perguntaram-lhe também sobre o DRM, aquele sistema que evita cópias ‘piratas’ de um CD. Conforme o esperado, Gates deu a entender que o DRM não tem futuro, mas também não sugeriu o que pode substituir o DRM.
* A respeito do futuro das aplicações, se elas vão rodar no navegador [online] ou no computador [offline], ele se esquivou. As aplicações mais interessantes serão aquelas que vão além dessa divisão [?].
* E sobre o uso de blogs na Microsoft. Nós somos uma empresa de P&D… nós precisamos muito de feedback. Nós precisamos ser transparentes no que estamos fazendo. Isto [blogs] é a relação mais íntima que uma empresa pode ter.
Pelo visto, nada bombástico, né?

Bati um papo por email com André Avorio, organizador da primeira BarCamp brasileira e talvez o único brasileiro presente na conferência Le Web 3, em Paris. Ele contou um pouco o que está acontecendo por lá. Percebe-se que o assunto ‘Bolha 2.0′ esteve presente.
1) Pelo que eu vi na lista de inscritos, você é o único brasileiro na conferência?
Foi o que também concluí olhando para a lista há alguns dias. :)
2) Qual a sua impressão sobre esse primeiro dia de conferência? O que deu para absorver? Quais assuntos chamaram mais a sua atenção?
Gosto quando misturam-se pessoas com diferentes backgrounds para conversar sobre idéias que extrapolam as limitações da internet, ou que a colocam numa posição de análise que nos obriga a pensar com maior amplitude. Fiquei extremamente contente com a sessão pelo professor Hans Rosling sobre mundialização, por exemplo.
Ele colocou todo o papo sobre 2.0 de lado para mostrar o mundo como ele é, e quais são as reais necessidades de um ponto de vista realmente global e inclusivo. Ter alguém para nos lembrar da realidade de minorias que não têm voz em um ‘mundo de vozes’ é nobre e inspirador.
É interessante também perceber a auto-crítica a que submetem-se VCs e empreendedores na tentativa de evitar uma bolha 2.0, apesar de existirem opiniões bastante divergentes sobre o assunto.
A discussão é rica, longa, obscura, e não espero chegarmos a nenhuma conclusão ou predição, porém. Julgo bastante relevante mantermos essa auto-crítica e observação constante do mercado para crescermos de maneira concreta.
3) Qual o perfil dos participantes da Le Web 3? Blogueiros e empreendedores web?
Empreendedores, VCs, blogueiros, jornalistas, criadores de conteúdo online (e.g. podcasts, videocasts), desenvolvedores, profissionais de publishing houses, relações públicas, telecomunicações, etc.

Niklas: ‘A imprensa não está morta’/ Fotos: Sachaqs
4) Pelo o que deu para acompanhar por aqui, via blogs, dois assuntos ganharam repercussão – Niklas Zennström, do Skype, que disse que a imprensa não morreu, e Danny Rimer, que afirmou que há um excesso de empresas Web 2.0, dando a entender que existe uma “Bolha da Web 2.0″. Você concorda com essas duas visões? Isso repercutiu por aí?
Estou de acordo com o Niklas – acredito que a imprensa velha não morreu, mas está, sim, passando por um processo de transformação que me parece fundamental para que continue existindo a longo prazo. O grande desafio, acredito, é combinar essa mídia nova e social com o antigo modelo de produção de informação.
Quanto à bolha 2.0: existem zilhões de startups sendo criadas todos os dias pelo mundo, e isso não necessariamente significa que o único caminho a seguir é o que leva a uma segunda bolha.
O mercado está passando por uma fase tão rica como nunca antes, mas ao mesmo tempo mostra-se muito mais maduro quanto nunca antes também.

As pessoas continuam experimentando, afinal essa é uma das essências mais belas da internet, mas somente algumas poucas empresas conseguem atingir um modelo de negócios sustentável e, consequentemente, acabam se mantendo no mercado.
Se precisa-se de uma metáfora com bolhas, eu colocaria desta forma: não existe uma grande bolha 2.0 chegando; existem milhares de empresas pelo mundo, e cada uma delas é uma pequena bolha.
Aquela que consegue se estruturar, deixa essa estrutura volátil e se transporta para um porto seguro; aquelas que não conseguem, duram até a tal bolha atingir o solo ou, quem sabe, explodir no meio do caminho.